20 de set de 2009

A chicotada na mesmice

Leio sobre Claude Debussy: ao compor uma cantata, teve a obra execrada no meio musical, que lhe apontou vários defeitos. Isso levou o compositor a dizer: "Por fim escrevi algo original!".

O original é tomado por "errado", por "imperfeito", pelo mundo acadêmico, o mundo "oficial". Não é só Debussy, não é só a música que passa por isso: todo inovador recebe a pecha de "não presta" por parte das "autoridades" da matéria.

As autoridades são reacionárias. Cheiram a passado. O papel da arte deve ser a ruptura, justamente, com o passado. Maiakovsky, no poema "Verlaine e Cézanne", ao dialogar com o pintor, diz

"Senhor,
desculpai,
conosco
para os velhos
o vosso nome
era
como um golpe de chicote sobre o rabo".

Perfeito! A arte deve ser exatamente isso: uma chicotada nos velhos. Os velhos preconceitos, as velhas formas preconcebidas, as regras sedimentadas, canonizadas. Uma chicotada, ou, ainda usando Maiakovsky, uma "bofetada no gosto público", tal como no manifesto do futurismo russo na primeira década do séc. XX.

Não digo com isso que devamos jogar fora a arte "clássica". Em absoluto. Apenas não podemos deixar que o clássico se converta em dogma. Arte cristalizada trai a si própria. Críticas da época acusavam composições de Debussy de serem "excessivamente pessoais e de uma liberdade irritantes". Mas como, se a liberdade é justamente o fim da arte? Isso não é crítica, é um elogio.

4 comentários:

  1. É a dificuldade de aceitar o novo... Nada melhor que escrever livremente. No início quando comecei a fazer poesias, nem mesmo pensava em rimar, gostava de escrever o que vinha no coração e ponto. Mas com o tempo fui percebendo que a rima dá musicalidade e valoriza a poesia... Agora quanto a ter que contar sílabas métricas, me perdoem os clássicos, mas acho um absurdo, eu acho que tira a originalidade do texto, pois leva a ter que mudar uma palavra aqui, outra ali, para cumprir a tal da contagem. E a inspiração onde fica? Fazendo assim, nem sempre será possível manter a essência e a intensidade dos sentimentos que levaram a compor o texto. Enfim, não sei se é bem isso que vc retratou, mas seu post me levou a refletir sobre isso... Prabéns pelo blog..

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  2. Marli, eu até gosto de sonetos parnasianos (versos alexandrinos etc.), mas você tem absoluta razão: isso tira todo o "fluxo" da inspiração. Fica mecânico, engessado.

    É por isso que Manuel Bandeira -não me lembro o poema- criticava o "lirismo que pára e vai conferir no dicionário" ;)

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  3. Tejo:

    Tejo:

    Vi-me refletido em suas palavras quando critica o engessamento da arte e a proibição do novo. Renovar. Essa tem sido uma de minhas palavras prediletas nesses dias, porém entendo o que disse, pois renovar implica em provocar, chatear, transgredir estruturas impostas.
    Norma culta ou linguagem coloquial? Regras gramaticais ou a liberdade de expressão? Arte ou repreensão?
    Afinal, será válido perpetuar as “múmias” da arte clássica por medo de inovar?
    Seu texto trouxe em pauta um tema a ser discutido não apenas aqui, na "blogosfera", mas em toda a esfera acadêmica, professores, estudantes, escritores, artistas... Precisamos rever aquilo que entendemos como vulgar e discernimos a evolução natural da arte.
    Recomendo um livro que estou a ler: Preconceito Lingüístico – de Marcos Bagno.
    Ele retrata exatamente a idéia de popularizar a linguagem e o acesso a ela, e de tirar as ataduras que prendem o saber e a invenção da língua. E nesse caso não apenas no que se refere à escrita, mas em todas as fragmentações da arte: pintura, literatura, música, artes plásticas, teatro...

    Att,

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  4. Obrigado pela indicação de livro, Velho Marujo.

    Fugindo um pouco do tema inicial, gostaria de acrescentar à sua lista a minha profissão, o Direito, no rol de artes/ciências engessadas pelo conhecimento "dos antigos". Parece-me que tudo na vida é assim: sempre se recorre aos argumentos de autoridade. Como no antigo bordão, "magister dixit" ("o mestre disse"). O mestre falou, assunto encerrado.

    Como disse no post, não se trata de jogar fora o conhecimento clássico. Mas sim de não torná-lo dogma, de não permitir que o clássico impeça o florescer do novo.

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