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4 de jan. de 2011

Duas histórias de bar

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Havia muitos anos eu não o encontrava. Trabalhava na banca de jornais aos pés do edifício onde morei em Copacabana, e sempre o via subindo de bicicleta a ladeira onde ficava o prédio. Após tantos anos, lá estava ele- grata surpresa. Fiz questão de ir cumprimentá-lo: lembrava de mim, na verdade não era muito mais velho que eu. Palavras amistosas, alguns comentários sobre aquela época. Daí falamos (não sei porquê) em objetivos, perguntei qual era o dele. Respondeu-me com simplicidade, quase dando de ombros: "ficar vivo". Aquilo me tocou e, como mais não podia, deixei uma cerveja paga para ele.

Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.

*

Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.

7 de ago. de 2010

Alguns poemas preferidos

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Demorei algum tempo até que tivesse saco para ler a "Ode marítima" inteira, de Fernando Pessoa sob o heterônimo Álvaro de Campos. E que coisa. Como alguém pode se lamentar tanto assim de algo que podia, mas nunca lera até então? A "Ode" é fantástica. É comprida -o que explica a falta de saco inicial- mas acaba por prender do início ao fim, e nos sentimos viajando pelos sete mares, sem sequer tirar os pés do cais do porto. Náufragos e ilhas desertas, barris de rum e almirantes, tudo está lá, todas as "coisas navais, velhos brinquedos de sonhos", e, por sobre tudo, Aquela, cujo espírito de bruxa dança, figuradamente, enquanto a carnificina pirata é consumada em alto-mar. Que imagem feminina linda. Cruel e sensual. Vejo então o quanto gosto de mulheres de espírito de bruxa.

Esse cenário marítimo nos leva, com o narrador do poema, ao delírio. Ele sente na carne o que é sofrer, e não só isso, o que é incutir, um ataque pirata. Nessa parte o poema se torna sanguinário e é preciso criar um Deus novo que dê conta disso, não um deus qualquer mas um "Deus dum culto ao contrário". Sentimos, junto com Álvaro de Campos, o que é ser o "pirata-resumo" e a "vítima-síntese", mas só até que o delírio passe: cá estamos de novo, defronte ao cais, olhando, serenos, o navio que se perde no horizonte.

6 de jun. de 2010

De cavaleiros templários

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Foi uma noite. Imbuído de melancolia, faço o que costumo fazer nesses momentos: leio o "Eu" de Augusto dos Anjos. Contraditório que seja, ler versos de tristeza, quando se está triste, é ter um pouco de alegria.  É ver que não se está sozinho. Daí, folheando as páginas, chego a "Vandalismo", um primor de poesia cruel. Cruel, e o próprio nome do soneto dá a pista- o vandalismo é o do despedaçar dos próprios sonhos, "no desespero dos iconoclastas". Mas que bela imagem, o contraste: primeiro Augusto nos apresenta as "catedrais virginais", com ênfase em sua pureza e beleza, para então acrescentar à cena a loucura do vândalo, que a tudo destrói. Como um estupro. E esse vandalismo, essa ofensiva aos "templos claros e risonhos", não se dá desacompanhada: conosco estão os "velhos Templários medievais".

Quem já leu "O pêndulo de Foucault", de Umberto Eco, com toda teoria da conspiração que permeia a obra, sabe que, no universo hermético -o do ocultismo- tudo se interliga de alguma forma. Não há acaso. O simpático padeiro pode ser membro de uma seita, assim como o colega de bar, sem que saibamos, um grão-mestre de alguma ordem obscura. Tudo sem que saibamos, sem que sequer desconfiemos. Eles, por sua vez, nos manipulam -a nós e à ordem mundial- e nos usam como joguetes de seus desígnios além da compreensão dos leigos. É nesse clima de conspirações que "O pêndulo de Foucault" se desenvolve, uma trama que confunde o leitor e o arrasta num turbilhão de suposições e suspense psicológico junto com o protagonista do livro, Casaubon. E, dentro do espírito do livro, o fato de Augusto dos Anjos ter incluído em seu poema os cavaleiros templários -um clássico do universo ocultista- não poderia ter sido mero acaso. Teria sido Augusto um iniciado?

11 de set. de 2009

Fotos suas

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Tenho um lado gótico. Atrai-me a temática chuvosa, nebulosa, sombria da vida. Não que eu seja depressivo (apesar de ter, naturalmente, meus momentos): gosto da estética, não do ser. A forma, e não a essência. É uma paixão às vezes incompreendida. Por exemplo, tempos atrás, no orkut, coloquei um retrato daquele outro sombrio, Baudelaire, com os célebres versos "Gloire et louange à toi, Satan, dans les hauteurs/ Du Ciel, où tu régnas, et dans les profondeurs/ De l'Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!/ (...)". Vieram me perguntar se eu era satanista...

Bem, o lado gótico da vida é extremamente rico- e poético. Não por acaso já falei aqui de meu contágio por Augusto dos Anjos, outro dos poetas malditos, que como ninguém soube retratar o aspecto down do cotidiano. Os românticos e os simbolistas (além de Augusto, que não era de escola alguma, "isso de escola é coisa pra medíocres", disse falando dele Órris Soares) são pura poesia gótica, depressiva, mística, sombria.

6 de jul. de 2006

Contágio

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Garaudy diz que a poesia é contagiosa. A arte é sagrada quando não nos deixa intactos, prossegue ele, de modo que no mergulho poético há o perigo de perda, de destruição, de transformação de fragmentos do ego, que serão devidamente substituídos e transformados em algo novo. O poema destrói em um primeiro momento o leitor, para reerguê-lo em seguida: e o que renasce não é o de outrora. Com efeito, que dizer de uma peça artística que nenhuma influência cause no receptor? Foi produzida debalde, perdeu-se.

Pego um livro de poemas, antigo, um tanto amarelado. Meu pai deu-me há dez anos, vejo pela dedicatória no frontispício, e já era na época um livro de segunda mão. Pego-o porque se trata de poesia contagiosa, não é um livro qualquer: abalou-me sobremaneira e ainda abala, e assim será. Falo do "Eu" de Augusto dos Anjos, poeta sobre o qual Olavo Bilac, ao ouvir alguns versos, disse que "fez bem em morrer, não se perdeu grande coisa", Augusto dos Anjos, cuja obra foi comparada com ouro, mas "ouro desperdiçado, ouro mal aplicado".