4 de jan de 2011

Duas histórias de bar

Havia muitos anos eu não o encontrava. Trabalhava na banca de jornais aos pés do edifício onde morei em Copacabana, e sempre o via subindo de bicicleta a ladeira onde ficava o prédio. Após tantos anos, lá estava ele- grata surpresa. Fiz questão de ir cumprimentá-lo: lembrava de mim, na verdade não era muito mais velho que eu. Palavras amistosas, alguns comentários sobre aquela época. Daí falamos (não sei porquê) em objetivos, perguntei qual era o dele. Respondeu-me com simplicidade, quase dando de ombros: "ficar vivo". Aquilo me tocou e, como mais não podia, deixei uma cerveja paga para ele.

Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.

*

Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.

O tal passado sombrio era o seguinte: matara, contou ele, o estuprador de sua irmã. Uma situação que choca o pequeno-burguês morador da zona sul, mas que é algo como uma realidade cotidiana nos grotões da Baixada Fluminense. Contou detalhes: disse como inicialmente não queria, mas como os amigos incentivaram, "botaram pilha", como se diz, como colocaram a arma na mão dele. Qualquer um pode entender o ódio: a irmã mais nova violada, brutalizada, o estuprador conhecido na vizinhança, próximo, vivendo como se nada tivesse ocorrido. Talvez houvesse deboche; talvez houvesse o sorriso cínico nos lábios, ao passar diante dos familiares da estuprada e continuar impune. Na Baixada Fluminense a polícia é lenta- quando há. Ao menos, anos atrás (quando se passou isso) era assim. Como um irmão, que tenha um mínimo de hombridade, pode aceitar isso por muito tempo?

Não justifico o ato. A justiça com as próprias mãos é coisa do passado, lá das trevas medievais para trás- além de ser crime na nossa sociedade. Não justifico, mas entendo o ato.

E o ato foi emboscar o estuprador, arma na mão. Primeiro meu amigo tentou repetir o gesto, abominável (mas que, repito, podemos entender), de estupro, tentando fazer com o estuprador o que o mesmo fizera com sua irmã. Não conseguiu sequer começar: isso também é compreensível. Seria um monstro se tivesse conseguido. Eu, ouvindo o relato, teria saído correndo nesse exato momento, se ele tivesse dito que conseguira. Não conseguiu currar o estuprador, portanto, mas o torturou à base de cutucadas de alfinete até que, enojado daquilo tudo, disparou a arma.

Ficou dias sonhando, pesadelos grotescos, com o estuprador assassinado, me disse. Muito, muito compreensível: só monstros não sonhariam. O irmão que buscou resgatar a honra da família não é um monstro: apenas alguém que, em uma terra sem lei, fez o que achou ser o certo. Não diz Augusto dos Anjos?

O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Mas o irmão vingador, ora assassino, não era uma fera. Era de fino trato, mesmo cortês.

Não sei que problemas com a Justiça teve depois disso. Se é que os teve: naquela região vidas valem pouco. Assim como não se dispuseram a apurar o estupro da moça, muito provavelmente não deram a mínima para a morte do estuprador. Quando o Poder Público não se faz presente, são as pessoas que resolvem seus próprios problemas, e voltamos às trevas medievais citadas acima. O que choca é que tanta gente viva neste faroeste caboclo, entregues à própria sorte, armas em punho para vingar uma irmã violentada.

Essa história que estou contando tem vários anos. Mas todos sabemos que as condições na Baixada Fluminense não melhoraram muito desde então: as velhas oligarquias, os velhos desrespeitos à lei e à vida. E o povo manietado.

A última vez que encontrei meu amigo, estava para ser pai: uma menina vinha a caminho. Desejei felicidades, pedindo, em pensamento, que ela herdasse um mundo mais humano, onde moças não fossem estupradas e irmãos não precisassem, com sangue, resgatar a honra.

2 comentários:

  1. Essa segunda história é brutal. Mas, quem é que pode julgar o sentimento dos outros? Quem pode garantir que faria diferente? A gente nunca sabe.
    Tomara mesmo que a filha dele tenha achado algo de mais humano por aqui...

    Bjs!!

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  2. Essas histórias barra-pesada acabam sendo comuns (infelizmente, diga-se). Há material para fazer muitos outros posts de histórias de bar, coisa que aliás pretendo.

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