6 de jul de 2006

Contágio

Garaudy diz que a poesia é contagiosa. A arte é sagrada quando não nos deixa intactos, prossegue ele, de modo que no mergulho poético há o perigo de perda, de destruição, de transformação de fragmentos do ego, que serão devidamente substituídos e transformados em algo novo. O poema destrói em um primeiro momento o leitor, para reerguê-lo em seguida: e o que renasce não é o de outrora. Com efeito, que dizer de uma peça artística que nenhuma influência cause no receptor? Foi produzida debalde, perdeu-se.

Pego um livro de poemas, antigo, um tanto amarelado. Meu pai deu-me há dez anos, vejo pela dedicatória no frontispício, e já era na época um livro de segunda mão. Pego-o porque se trata de poesia contagiosa, não é um livro qualquer: abalou-me sobremaneira e ainda abala, e assim será. Falo do "Eu" de Augusto dos Anjos, poeta sobre o qual Olavo Bilac, ao ouvir alguns versos, disse que "fez bem em morrer, não se perdeu grande coisa", Augusto dos Anjos, cuja obra foi comparada com ouro, mas "ouro desperdiçado, ouro mal aplicado".

Ah, a injustiça do mundo! Aquele que passou incógnito em vida hoje é dos poetas maiores do Brasil. E sua poesia tem o mesmo efeito, simbolicamente falando, da tuberculose e moléstias que transbordam de seus versos. Sentimos o mal-estar dos hospitais, dos necrotérios, da sarjeta. "Descender dos macacos catarríneos,/ Cair doente e passar a vida inteira/ Com a boca junto de uma escarradeira/ Pintando o chão de coágulos sangüíneos!". Sentimos a desilusão. "O amor, poeta, é como a cana azeda,/ A toda boca que o não prova engana". Sentimos o pessimismo. "E, em vez de achar a luz que os Céus inflama, / Somente achei moléculas de lama/ E a mosca alegre da putrefação!". Sentimos a dor, e essa eu destaco:

Melancolia! Estende-me a tu'asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!
"

Na verdade, é impossível não se solidarizar, não se tocar pela intensidade do sofrimento. É a isso que Garaudy alude: Augusto dos Anjos não nos deixa intactos, ele contamina-nos. Cumpriu sua finalidade poética.

*

O livro de Garaudy que eu cito é "Rumo a uma guerra santa? O debate do século" (1995), cujo capítulo 5 ("O Deus que não cessa de criar- não há arte que não seja sagrada?") é um primor de sensibilidade e lirismo.

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