24 de set de 2010

African herbsman (e um agradecimento)

Na última postagem falei em Bob Marley. Foi tão en passant que queria voltar ao assunto, e com certeza tio Bob merece uma postagem própria (e na verdade me surpreendo ao ver, quatro anos de blog depois, que ainda não tenha escrito mais a fundo sobre Marley; a única referência, olhando pra trás, é a ilustração do post Sobre ópios e fermentos, "O olho de Jah", que achei em algum lugar pelo google).

Nunca fui propriamente "regueiro". Até pode-se dizer que conheço pouco: algum Black Uhuru, Yellowman, Israel Vibration, Jimmy Cliff (óbvio), e fico por aí. Era, isso sim, bobmarleyzeiro: tinha camisa, pôster no quarto e fita tricolor etíope (aquela verde-amarela-vermelha) no pulso. A idade ajudava: ainda tava no segundo grau, ainda não tinha adentrado os portões austeros e conservadores do estudo do Direito. Comecei a ouvir Bob Marley através -hoje dá até vergonha- do Cidade Negra, vergonha porque há muito esse grupo (ainda existe? o Toni Garrido tá fazendo novela) virou pop, longe da verve original da época do Ras Bernardo.

O que exatamente me cativou em Bob Marley?

O primeiro cd que comprei foi um bem rudimentar, aquelas coletâneas de gravações antigas de pouco trato (diferente do bem trabalhado "Legend", por exemplo). Isso em 1995. Vendo hoje, é talvez meu disco preferido do Bob. Sempre o redescubro, uma paixão cíclica: nunca acaba, eventualmente fica morna, para depois abrasar novamente. Esse disco tem esse efeito sobre mim. Consegue ser, ao longo de suas 14 faixas, espiritual, religioso, político, amoroso, sonhador: todo um caleidoscópio de sensações que, mais que sintetizar a obra de Marley, sintetiza a própria vida.

E a sonoridade? Aquele bongô, não sei porque, na primeira vez que ouvi me remeteu à infância, a desenho animado. Talvez algo similar (ou o mesmo som?) que eu tenha ouvido, muitos anos atrás, e que de alguma forma ficou marcado, gravado. Inexplicavelmente. É hipnótico, mas não do tipo que leva à inércia: daí ser perfeitamente compreensível que seja um som associado ao uso da "ganja".

E tinha também a África. Mesmo sem conhecer a letra na época, impossível não saber que "Rainbow country" se referia à África (na teologia rastafari, seria o "Monte Sião", Mount Zion, o paraíso, mas cá na Terra é a própria África). E a África por sua vez traz camadas e camadas de emoções, num nível inconsciente, e de novo lembramos a infância e Tarzan e aventuras entre rinoceronte e leões, girafas e zebras, e rios sob densa vegetação. A África misteriosa, ancestral, da qual o gênero humano saiu e para qual, pede o rastafarianismo de Marley, deveríamos retornar. Como filhos pródigos para a mãe que aguarda.

Talvez então tenha sido isso, o que me cativou: ouvir Marley é ouvir o chamado materno, é o retorno. Nos milhares de sentidos metafóricos que isso possa ter.

*

Agora, o agradecimento.

Meus textos Um esboço teológico: Deus e nós mesmos e Sobre cristianismo e revolução foram publicados nos blogs dos amigos Guilherme (Fora da Ordem) e Hermes Fernandes, respectivamente. Além de ficar profundamente lisonjeado, sinto uma alegria imensa ao ver que estamos fomentando um debate, um intercâmbio de ideias. O diálogo entre os comunistas e os religiosos de qualquer credo (e também comunistas-religiosos ou religiosos-comunistas, como o companheiro Fernando) é rico e muito tem a acrescentar a todos nós. Com nossas divergências -de método, de concepção- e críticas recíprocas, temos em verdade o mesmo objetivo, a mesma meta: o mundo justo e fraterno, chamemos-lhe Reino de Deus ou sociedade comunista.

Afinal, o revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor (Che Guevara) e, sem amor, eu nada seria (1 Cor. 13:02).

4 comentários:

  1. Gosto d ouvir Bob mas nunca tinha olhado pra ele como vc acaba d m mostrar. Obrigada.

    Quanto ao texto citado no agradecimento indiquei a minha filha e a alguns amigos q lessem. Parabéns amigo, vc tem um talento especial com as palavras.
    Bjs, bom fim d semana.

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  2. É importante isso: construir o diálogo, construir a dialética. Os blogs são ferramentas que permitem esse intercâmbio.

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  3. ESPAÇOS

    Somos seres sensíveis
    precisamos do diálogo
    para nos movimentarmos
    nesse contexto incrível
    do mundo real
    e das nossas emoções
    com nossas ideias e expressões

    Somos tão cabíveis
    em qualquer dos espaços
    se nos articularmos
    de forma pura e visível
    no mundo real,
    embora as emoções,
    com nossas idéias e expressões

    Nem tão temíveis
    mas respeitados
    se nos aventurarmos
    pelo imprevisível
    no mundo real,
    com nossas emoções
    mas, idéias e expressões.

    Ninféia G

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  4. Isso mesmo: abramos "espaços". Belos versos, Ninféia.

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