17 de set de 2010

Música e rebeldia

Bad Religion é legal porque, ao lado da verve punk, há o ritmo melodioso. Daí "hardcore melódico", que é a vertente californiana do estilo, em oposição ao hardcore nova-iorquino, que é o "hardcore pau", tipo pa-pa-pa. Pelo menos era assim que se dizia, há uns 10 anos atrás, quando eu comprava "Rock Press", finada revista sobre, obviamente, rock.

Não é verdade que rock seja música "rebelde". É tão rebelde quanto qualquer outro estilo musical possa ser. "Almas rebeldes" temos em quaisquer acordes, reggae por exemplo ("Soul rebel" é o nome de uma música de Bob Marley) ou MPB, com toda a subversão -camuflada que fosse- de um Chico Buarque diante da ditadura. Ademais, ser rebelde não quer dizer grande coisa por si só. Não é sinônimo de progressismo, por exemplo. Pode-se ser um reacionário rebelde, se insurgindo contra os avanços sociais. O "rebelde sem causa" é uma coisa vazia, fútil. É um pequeno burguês.

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Há que contestar, mas sabendo a que se presta a contestação. Ser "do contra" sempre é mais um defeito que uma qualidade. Não só derrubar, o desafio está em erguer também.

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Voltando à música, falei do reggae acima. É um dos exemplos de aplicação política da religião, ou de aplicação religiosa da política. Enquanto se louva Jah, se denuncia a "Babilônia" (que pode perfeitamente ser identificada com o sistema capitalista, ou "capetalista", pra mantermos o espírito religioso) e se troca tiros com os homens da lei.

É a religião engajada:

The bars could not hold me
Force could not control me now
They try to keep me down
But God put me around
(Bob Marley, "Duppy Conqueror")

E os escravos estão presentes, também, toda revolta contra essa prática odiosa que traumatizou um povo. Assim, sentimos as chicotadas na carne em "Slave driver" e temos esperança num futuro renovado, em "African herbsman" (ambas do tio Bob).

Mas a mensagem é mais contundente em "Crazy baldhead", que traz um apelo explícito à violência:

(We) Build your penitentiary, we build your schools
Brainwash education to make us the fools
Hate is your reward for our love
Telling us of your God above

A revolta à luz de Jah, que não quer que sejamos escravos.

*

Engajamento na música brasileira também tem. Falei em Chico nos anos 70 acima, mas tem também toda a turma do BRock. Se bem que aí, na abertura política, ser politizado não era mais que obrigação.

Erro crasso do Humberto Gessinger, porém, ao colocar Fidel e Pinochet como parelhos em "Toda forma de poder". A crítica é válida sempre, mas tem que ser fundamentada; coisa impossível em um único verso.

E o funk carioca, é contestador? Querer "ser feliz na favela em que nasci" não me parece progressista. Ao contrário, é a submissão do pobre, a aceitação de seu papel na sociedade capitalista. Nesse sentido, podemos dizer que o funk é reacionário.

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A imagem do post é a capa de "London Calling", do The Clash:

I fought the law- and the law won
(enfrentei a lei- e a lei venceu)

3 comentários:

  1. Costumo dizer q a música fala por mim, sempre foi esta minha relação com ela. E muitos a usam pra manter a situação como vc citou nos funk cariocas. Q venham logo uma geração de contestadores musicais e ouvintes conscientes.
    Abraços.

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  2. Acho que o Brasil teve uma penca de bandas e artistas engajados politicamente, que utilizavam a musica como forma de protesto. Olhando para trás, estamos bem servidos. Mas, atualmente, não consigo destacar ninguém.

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  3. Politizado, hoje, acho que só no underground. Ou no rap de periferia de São Paulo.

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