31 de mar de 2008

Sobre ópios e fermentos

Muito se fala da vida ser um rosário de dores, um longo vale de sofrimento e lágrimas do qual nada se deve esperar. Fala-se em absurdo (a expressão é existencialista), na náusea da existência; e é possível que assim seja, mas, como já perguntava Maiakovsky, por que aumentar o rol de suicidas?

Não quero parecer aqui um escritor de auto-ajuda. Mas, se há os sofredores, é preciso amainar seus sofrimentos, como dever humanista. Não falo aqui do sofrimento material, expressão da luta de classes- falo daquele que nem a sociedade igualitária e libertária do comunismo futuro pode sanar (não caiamos no obscurantismo de outrora, quando se pensou que o marxismo seria a panacéia da condição humana). Não há panacéias. O câncer do tempo está nos comendo, diz Henry Miller¹. O comunismo futuro será um passo à frente na evolução humana, a superação de antigas contradições, o fim das alienações, ou seja, será uma sociedade qualitativamente superior; mas o homem, com suas constantes limitações, seguirá ad eternum imperfeitamente humano, demasiadamente humano.

Mas imaginemos que haja uma saída, que haja uma coerência nas coisas. Se creio em coerência, não posso mais falar em absurdo; se há um sentido, não há náusea. Os velhos ateus vão se arrepiar, agora: do que falo eu? De Deus, ora. Tudo muda, agora: o sofrimento já não é insuportável, as dores tornam-se menos atrozes.

Será alienação, querer encontrar esse sentido? Mas, ao contrário: se há o sentido, não há alienação, alheamento. Fromm: "Alienar-se é, em última análise, vivenciar o mundo e a si mesmo passivamente, receptivamente, como o sujeito separado do objeto"². Ora, homem separado do objeto, do mundo...! O que é preciso, senão religá-lo à realidade maior? Religar, religare, religião.

A análise da religião como instrumento emancipador não é nova, já sendo sobejamente utilizada: a Teologia da Libertação é um exemplo. E Roger Garaudy já dizia que a religião pode, de acordo com o contexto, ser fermento- e não ópio. De minha parte, parece claro que nenhum fenômeno de superestrutura é ruim por si só (ao contrário, pensar assim é, isso sim, ser idealista, como se a superestrutura tivesse existência separada do contexto material). Se a religião é alienante, é porque ela emerge, brota, está fundada em base alienante. Mudando a base, mudamos a superestrutura; essa é a lição elementar, que a anti-religiosidade obtusa deixa esquecer.

***


Na imagem, "O olho de Jah", autor desconhecido.


¹ Na magistral abertura do "Trópico de Câncer".
² Erich Fromm, "Conceito marxista do homem".

3 comentários:

  1. A religião é o ópio do povo – Karl Marx.

    Concordo plenamente. Mas até que ponto isso é nocivo? O ser humano precisa se embriagar de alguma coisa, preencher seu vazio existencial. Antes a religião que as drogas, a violência, enfim. Se o indivíduo sai das drogas e se converte ao cristianismo, por exemplo, com certeza ele vai ser o mais fanáticos dos religiosos. Eu penso assim sabe por quê? Porque ele é um (ex) viciado, ele não pode ser um religioso light, ou ele fica entorpecido pela religião ou volta a cometer delitos, (sai de um vício entra em outro) por isso se torna um extremista, o meio termo vai derrubá-lo. Esse é o meu pensamento, embora não tenha tido nenhum contato direto com situação semelhante, mas acredito que seja assim.

    Eu escuto as pessoas dizerem que nas igrejas existem tantos ex traficantes; ex- homicidas e tantos outros “ex” excluídos da sociedade. Isso porque a igreja está aberta para todos – classe social, raça... A religião desempenha um papel importante na sociedade, o problema é quando perdem tempo demais procurando meios de ganhar dinheiro. É lamentável quando isso acontece, pois não é essa a função dela.

    Na religião tem muitos pontos positivos, mas tbm muiitos negativos. Mas e aí, é Deus o culpado. Nãoo... É o Homem!!! Onde está o homem há falhas... O sistema foi criado pelo homem não por Deus... Mas é a forma que se encontrou de pregar o evangelho...

    ***
    O comentário está um pouco contraditório porque há os dois lados da moeda que precisa ser muito bem explicado, principalmente no que se refere a alienação, mas já me estendi demais por ora...

    Boa noite!

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  2. Concordo que a religião sirva de consolo. O ser humano precisa disso; como seria insuportável a vida, sem consolos, bálsamos, alívios?

    Ocorre que, penso eu, talvez seja melhor a realidade "dura" à fantasia "consoladora". Quem diz isso é Carl Sagan, em "O mundo assombrado pelos demônios".

    Marx, na obra que fala em "ópio do povo", diz que "A crítica [da religião] arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva".

    Isto é, é preciso que nos libertemos das flores imaginárias que adornam as correntes, para que nos libertemos das correntes e tomemos posse da flor viva, real.

    O homem livre do consolo imaginário encontra a realidade, e, livre, torna-se senhor de seu destino.

    O grande problema aí é a existência, ou não, de Deus. É esse o ponto nodal da questão que, decididamente, não tem resposta.

    Entendo o seguinte: a crítica da religião (da qual compartilho) não é capaz (nada é) de entrar no mérito da existência ou não de Deus. E nem é seu papel- a religião é produto de superestrutura, e como tal sujeita aos influxos materiais. A crítica da religião se esgota nisso. Deus, caso exista, está à parte. Isso porque a religião é modo de entender Deus, mas não o próprio: o sujeito da análise não se confunde com a própria análise.

    Como a questão, existência ou não de Deus, está eternamente em aberto, a posição mais adequada, em minha opinião, é a do agnosticismo. Em cima do muro, enfim, rs.

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  3. Em cima do muro, Tejo, hum... talvez ainda haja esperança (rs)

    Sim, não podemos viver de fantasia – a vida é dura, difícil, e dessa realidade não tem como fugir. Mas há de concordar que todos nós vivemos procurando um escape, certo? Uns em Deus, outros no vício, ou em drogas, medicamentos, enfim, cada um parte para um caminho, mas com o mesmo objetivo – “fuga” (da realidade??). Bom, seja como for, infelizmente, ou não, desses citados acima, há um só caminho bom e que nem todos optam por Ele, os demais levam a perdição, ao fim.

    Quanto a obra citada de Carl Sagan, eu não tive a oportunidade de ler, não conheço a sua essência, mas, penso que todos nós estamos buscando expurgar os demônios que assombram a nossa mente, não digo espiritual, mas do nosso eu, que querem nos tirar a paz - Quem quer conviver com tais? Não dá, corre-se o risco de enlouquecer. Os sonhos, as fantasias oferecem o equilíbrio para essa nossa “dura” realidade. Concordo que temos que sonhar com os pés no chão, viver a realidade, mas sem deixar de lado a “fantasia”... Veja só mais alguns contraditórios, Tejo.

    Destino ou Livre Arbítrio? Na Bíblia diz que Deus nos dá o livre arbítrio, sendo assim, nos tornamos senhor do nosso destino, ou não? Mas ainda assim eu sinto que: “Ah! O destino.../ Ele me pega pelo braço,/ me arrasta, /me leva para onde bem quer/ e ainda me diz:/ é aqui que você vai ficar”

    Eu concordo com você quando diz que Religião e Deus são fatos distintos, embora estejam extremamente ligados. A religião com seu modo de entender Deus, cria um sistema com princípios e regras, e Deus está além, muito acima disso, eu acredito que ELE não está nem um pouco preocupado com isso, nada disso importa. (isso visa, interesses terrenos, apenas).

    Quanto a existência de Deus, penso que nossa mente não é capaz de compreender tamanha vastidão (Ele - Onipresente, Onipotente e Onisciente --- e nós tão pequeninos diante dessa grandeza não é?). Então, meu amigo, é aí que entra a fé. Não me peça para explicá-Lo, basta acreditar. Ele é infinito, até hoje ninguém conseguiu compreendê-Lo em sua totalidade, ou definir se Ele é assim ou de tal forma, mas podemos senti-lo. Você não? Deus está na profundeza do meu ser e também do seu ser, faça um mergulho para dentro de você, Ele está aí!

    “Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá” (Sl 139: 7-10)

    Grande abraço.
    Foi um imenso prazer.

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