20 de ago de 2010

Um esboço teológico: Deus e nós mesmos

Uma coisa interessante é que, seja pelo viés metafísico seja pelo materialista, não deveríamos nunca estar nos aborrecendo, ou aflitos, com o que quer que fosse. Se algo de ruim nos acontece, é a vontade de Deus. Deus sabe o que faz, logo ficamos serenos e deixamos o problema transcorrer confiantes. Mas, se Deus não existe, tampouco há que se esquentar a cabeça. Algo de ruim nos aconteceu? Que bobagem, amanhã morreremos todos, vale a pena esquentar com isso? A vida acaba e com ela o sofrimento. Crentes e ateus unidos na convicção de que não vale a pena sofrer.

Falar é fácil. Sofrer faz parte de estarmos vivos. A vida é, com o perdão da redundância, viva, e almejamos, desejamos, anelamos, aspiramos, algo. Algo qualquer. E é bom que seja assim, não querer é estar morto, é estar estagnado, conforme falei no post, Fernando Pessoa (aliás, Alberto Caeiro) como imagem, "O não querer é contrarrevolucionário". O grande segredo talvez seja não "não querer", e sim querer sem sofrer. Seria a solução dialética do problema, o "querer" de um lado, como elemento impulsionador da vida, combinado com a ausência de sofrimento por tal querer, pelo contrário, combinado com a alegria por termos ânsia, vontade. Ficamos com o que é bom, deixando de lado o inconveniente no "querer". Fazemos assim do querer uma fonte de alegria, pois se querer é estar vivo, temos vida, e vida em abundância (copyright João 10:10).

O assunto está relacionado a Deus, e não foi por outro motivo que comecei o post falando em crentes e ateus. Quando queremos algo, a quem pedir? Quando crianças, ao pai, quando adultos, ao Pai, com maiúscula. Não digo com isso que os crentes sejam infantis, apenas que há uma paralelo entre as duas posturas, a da criança e a do adulto, de recorrer a alguém superior, quando a nossa capacidade não basta. Não me parece ilógico esse pedido de intercessão. Sendo o pai o responsável pelo filho, vai atendê-lo, incluindo sendo esse pai -caso seja- o Pai em maiúsculas. Pois parece-me que, se Deus existe, intercede, e cotidianamente, neste mundo. Chegaria às raias do absurdo conjecturar um Deus que, após criar o mundo, o abandonasse à própria sorte. É Henry Miller que disse que Deus criou o mundo e entrou nele. Deus, pois, se existe é engajado, e se é engajado participa conosco dos reveses. É por isso que repudio a ilação reducionista entre religião e alienação, como se não pudesse ser a religião, ser Deus, fonte de força transformadora, real, em nossas vidas.

Ler os autores zen, Osho em especial, costuma me trazer uma enorme alegria. Conforme se avança nas palavras, nos conceitos, sentimos uma emoção profunda crescer, semelhante a uma descoberta. Mas, paradoxalmente, essa leitura também traz um medo consigo. Afinal, somos convidados a despertar. Não há o paraíso nem o inferno num futuro distante, não há o milagre sobrenatural nem a divindade que irá, miraculosamente, nos salvar. Não há nada. A não ser nós mesmos. Nós mesmos...Quando pensamos que a "salvação" só depende de nós, sentimos calafrios. A quem recorrer? Mas como, quem nos salvará? Nós mesmos...Isso dói, arranca o chão, tira os cobertores. E, sem véus, encaramos a realidade como ela é. Essa é a principal contribuição que o budismo (o zen em particular) me dá.

Essa questão lembra a fala de Marx, na "Introdução à crítica da Filosofia do Direito de Hegel", sobre como a flor falsa deve desaparecer: não para que fiquemos sem flores, de jeito nenhum, mas para que a flor real nasça. Pois é a realidade que deve brotar, não a ilusão, não a Matrix. A realidade, como ela é, e só por ser realidade já é preferível à ilusão.

O hinduísmo também trabalha, como o budismo, com o conceito de ilusão.O convite é justamente para superá-la:

Ó descendente de Bharata, ó vencedor do inimigo, todas as entidades vivas nascem em ilusão, confundidas pelas dualidades surgidas do desejo e do ódio/ Aqueles que agiram piedosamente tanto nessa vida quanto em vidas passadas e cujas ações pecaminosas se erradicaram por completo livram-se da ilusão manifesta sob a forma de dualidades e ocupam-se em servir-Me com determinação. (Bhagavad Gita, 7: 27, 28)

O que seria duro, para o crente, é se o mesmo Krishna, que faz esse apelo contra a ilusão, for ele próprio ilusório, produto humano. É perturbador, para o crente: a derrubada pela raiz do seu conforto, de seu alívio, de sua esperança.

Tudo conjectura. Se não se pode matematicamente provar Deus, tampouco se pode negá-lo. Deus é uma ideia que faz sentido para mim: havendo efeito, há causa. Não concebo o universo do nada, surgindo aleatoriamente por uma combinação físico-química qualquer; parece haver uma causa consciente por trás disso. Dê a essa causa consciente o nome que se queira.

Uma coisa, todavia, me parece clara. Essa causa consciente, caso seja real, colocou em nossas próprias mãos o livre-arbítrio. Vale dizer que a salvação é um processo do aqui e agora, vale dizer que a salvação, o que quer que seja isso, depende, mais do que nunca (e talvez absolutamente), de nós mesmos.

10 comentários:

  1. Comecei a ler o seu blog por simpatizar das suas idéias na Diálogos, agora me vejo atraído a cada nova postagem por admirar seus textos e o grande intelcto que está por trás deles.

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  2. Caro Tejo, essa sua última postagem é fantástica. Concordo com cada linha que você escreveu.

    Deus se existe é ao meu ver imanente e não transcendente.

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  3. Meu Deus! Que texto fantástico!

    Não que esteja surpreendido, já que de antes conheço teu talento dialético, mas conflitante comigo mesmo, vendo a possibilidade de rever tais conceitos, afinal, como já diria B.bnegão na letra de Stab: "Esperem sentados a redenção, nossa vitória não será por acidente."

    E ele estava correto, muitos (me incluo) ainda permanecem no ilusório conceito de um salvador que os salvará das adversidades inesperadas da vida, da morte, da pós-morte. Mas, quem nos salvará de nós mesmos?

    Deus existe. Mesmo sem provas concretas, vejo sua existência como fato e não suposição, e a vejo (como bem mencionou) na criação, pois tal perfeição só teria tal efeito propositalmente. A questão é que Ele nos deu liberdade de escolha, antes mesmo de esta ser sancionada por lei, e nós, por medo, conforto, ou por meramente, sermos humanos, desfazemos a possibilidade de escolha, por não acreditarmos em nós mesmos, como instrumento de nossa própria salvação.

    Teologicamente, é isto, devemos aprender de o Pai criou o mundo, a criatura o mundo moderno. Cabe a nós, revertermos o quadro, caso o contrário, a destruição (global ou pessoal), terá como culpado, apenas nós mesmos.

    FORA DA ORDEM
    http://fdordem.blogspot.com/

    OBS: Quem fala é o "Velho Marujo", e este é meu novo blog, o FORA DA ORDEM. Após ler muita coisa, de autores como você e tantos outros, quais tenho como instrutores sociais, já que trazem a reflexão de coisas, de âmbito social e humano, esquecidas pela própria sociedade e humanidade, resolvi fazer mais, e expor mais minhas idéias a cerca do que vejo e penso.

    O ELOGIO DA DIALÉTICA, sem duvidas é um dos inspiradores nesse meu novo projeto.

    E peço liberdade para postar este texto lá. Pois, tem tudo haver como o que proponho e acredito.

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  4. Tejo,

    Conforme lhe falei, postei este artigo em meu blog, por assimilar as idéias, resolvi divulga-lo.

    Segue o link:
    http://fdordem.blogspot.com/2010/08/uma-coisa-interessante-e-que-seja-pelo.html

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  5. Sempre me senti atraído por esse debate. Com certeza tornarei a escrever sobre isso em breve (assim como já há outras postagens relacionadas).

    Valeu, João, Fernando. Velho Marujo, boa iniciativa. Vamos colocar desordem nessa ordem.

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  6. Colega,

    Ao final, o Ilusão se fez verdade em seu artigo.

    Mais um crente

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  7. Parabéns pelo belo trabalho apresentado aqui no blog.

    Já estou seguindo!

    Aproveito para lhe convidar a conhecer meu blog, e se desejar também segui-lo, será uma honra.

    Seus comentários também serão sempre bem-vindos.

    www.hermesfernandes.blogspot.com

    Te espero lá!

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  8. "Deus Humanidade" Único e verdadeiro!

    "Handurillah" ...continuo mulando,aqueles mullás, lá na comu. ;)

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  9. Amigo, maravilhoso texto e confirma o q penso q muitos ainda fogem às responsabilidades d seus atos e escolhas como se um ser Mal é q o induziu e pedir ao Pai q o impeça d agir errado o livra da culpa. A conformação vem tb da crença d q é preciso ser feliz, mudar jamais.
    Abraços.

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