14 de ago de 2010

Perfumes

Exupéry diz, em "Terra dos Homens", obra da qual já falei (aqui e aqui) que o cheiro de mar, para quem o sentiu uma única vez, não pode mais ser esquecido. Não pego o livro há um bom tempo, mas a ideia passada é exatamente essa. Eu, que passei a infância e adolescência em um bairro litorâneo, Copacabana, sei exatamente o que é isso: o quanto o cheiro do mar é marcante, é indelével. Um perfume salgado que remete a amplidões, que traz consigo visões de pequenos barcos de pesca da Colônia de Pescadores, no Posto 6. Onde há o pequeno santuário de Nossa Senhora, de manto azul- azul como esse mar que, quando à noite passeamos pela areia, aspiramos. O cheiro não vem sozinho, como se vê. Há a sensação da areia molhada sob os pés e o barulho do mar. O mar, pelo mero fato de existir, atinge-nos todos os sentidos.

Nas Barcas, a caminho de Niterói, também há esse cheiro. Mas já conspurcado, já vilipendiado, como um santuário profanado. O que é natural, em outros lugares, na Baía de Guanabara é poluído, toda a carga de dejetos que nós, seres humanos, reiteradamente despejamos sobre a natureza. E ei-la fétida, águas macilentas, amareladas. Mas ainda assim águas, ainda assim mar: sofre, mas não é avara, a natureza. Por sobre todo o fedor dos detritos, ainda nos dá, sutil que seja, o mesmo perfume de mar. E tornamos a nos sentir em casa, mas em casa num sentido mais profundo.

*

Ela tem cabelos negros. Já estão secos, mas mantêm o perfume suave de algum xampu. São brilhosos, os cabelos negros, negros, uma cascata noturna. Pretos de universo, preto cósmico, espaço-tempo tortuoso. Buraco negro: aproximar o nariz para cheirá-los é ser tragado.

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Quando cai a chuva, e encontra a terra, a sensação é de interior do Brasil. Roça e pomar, quintal e grama. Mesmo os urbanos como nós, diante do cheiro de terra molhada, sentimos despertar o provincianismo atávico.

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Incenso tem cheiro de mistério. As varetas se reportam a Rama; as ervas a Olorum e o turíbulo, a um padre idoso, mas enérgico, deslizando vagarosamente pela catedral.

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Carvão em brasa é churrasco e cerveja. Já não bebo, mas o cheiro da fumaça remete aos momentos em que, bêbados, perturbamos as poucas fêmeas na festa que ainda têm paciência conosco.

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Poderia prosseguir, mas tenho as narinas obstruídas. Maldita alergia.

3 comentários:

  1. Os cheiros também me marcam muito. Cada um traz uma história. Sempre digo que minha memória olfativa é melhor que a memória "normal" (a que lembra nomes, cidades, lugares).

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  2. Sinestesia...Tão longe do mar que estou, pude senti-lo... Intenso, profundo...fecundo.

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  3. Os cheiros têm esse poder. Aliás, me parece que o olfato é um dos sentidos menos valorizados. Talvez por estar associado a algo "animal", quem sabe.

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