1 de jun de 2010

Tédio e vida

Parece que os espíritos tendem a ser atraídos para a mediocridade. Em todos os campos, em todas as esferas de atuação humana- no amor inclusive, e principalmente, haja visto que a maioria (absoluta) dos relacionamentos deságua naquele fantasma inexorável, o tédio. É aquela história: façamos o que for, acabamos por nos conformar, nos habituar, castrando qualquer outra possibilidade de mudança. Triste, principalmente, quando sequer nos damos conta disso, e nos contentamos com nosso pequeno mundo. E enxergamos nele o ideal de felicidade que pedimos a Deus.

Não quero ser intolerante. Acredito que as pessoas têm a liberdade de seguir rigorosamente o tipo de vida que quiserem, mesmo que esse tipo possa parecer inadequado ao olhos dos outros. Defendo a liberdade plena- por ser comunista, sou libertário. A pessoa deve ser livre até para cercear a própria liberdade, se assim quiser. O que acho que é essa liberdade, justamente para fazer jus a esse nome, deve ser consciente, voluntária. E não imposta por padrões preconcebidos e arcaicos. A "tradição" é um perigo. A mulher aceita ser reduzida a uma dona de casa geradora de rebentos simplesmente porque sua avó, e a avó de sua avó, eram assim. E acha que esse é o papel dela, também. Isso não é liberdade: é lavagem cerebral, é a reprodução acrítica de um comportamento.

Mas, voltando aos relacionamentos. Pego Maiakovsky: não vi, até hoje não vi, nenhum escritor, pensador ou poeta expressar o meu ideal de amor como Maiakovsky em "A propósito disto", mais especificamente na parte, justamente, "O amor". Já tem postagem sobre isso, aqui. Esse poema foi musicado por Caetano Veloso e cantado por Gal, "O amor" também o nome da música, e ficou boa. Souberam manter o espírito original. Tenho no tocador de mp3 e ouço sempre, no caminho para o escritório.

Do que fala, "O amor"?

Fala que o amor não pode ser escravo de casamentos, de contas, de obrigações, de deveres. Que o amor, livre, deve "se ir pelo Universo inteiro". Para além dos nichos das casas. Deve ser planetário, universal (bem seguindo o ideal comunista): a família deve ser o mundo inteiro, a mãe, a Terra, o pai, o Universo. Bastante diferente, portanto, dos "amores" cotidianos, mesquinhos, conservadores. O amor do ciúme, da possessividade, das brigas domésticas, dos divórcios, dos filhos traumatizados. Que leva à melancolica, à depressão e, não raro, ao suicídio. Não é verdade?

Henry Miller foi outro que captou bem isso. As páginas finais do "Trópico de Capricórnio" fazem a cabeça girar. Quem lê, se sente, como ele, às portas do salto que o novo amor pode trazer, novo amor este que é tudo menos maçante. Pode se converter em maçante, pode soçobrar- e geralmente soçobram. Mas não naquele momento, não na hora do pulo, do risco, de quando se deixa para trás a comodidade da vida "pacífica" e...se salta. Aonde chegaremos, não podemos adivinhar. O salto não teria graça se soubéssemos, de antemão, que há uma rede de proteção lá embaixo.

A questão -tédio x vida- não se resume aos relacionamentos, como eu falei no início. Tornaremos ao assunto.

Na foto, infelizmente turva, embaçada, está Veronica Polonskaia, outra musa de Maiakovsky. Um dos -muitos- motivos do suicídio teria sido ela.

7 comentários:

  1. Meu deus.
    seu texto tem tantas coisas que quero/preciso comentar mas são vinte pras cinco da manhã e eu mal consigo me concentrar nas suas linhas.
    primeiro, a pergunta (e já que a resposta pode ser longa, sinta-se a vontade de me mandar por email, isto é, se quiser respondê-la): como ser comunista e acreditar nisto nos dias de hoje?
    eu gosto dessa idéia do amor livre. flerto bastante com ela mas, de novo: como fugir dos ciúmes, por exemplo?
    uma coisa que me amedronta, realmente, é o tédio no relacionamento. virar um "boring old couple". acho que morreria se me visse em um relacionamento assim, ou terminaria tudo, por mais que me doesse.
    e quanto ao Henry Miller - e de novo ele - senti realmente isso nesse livro e em vários outros dele. Só que, a hora do salto é viciante. Assim que uma pessoa como eu, digamos, se "cura" do término de um amor cotidiano, pulo de novo, e com vontade. Acho que o amor é sempre um risco e, um risco que vale a pena correr.
    Vou voltar pra ler o Maiakovsky.
    te respondi lá no blog. :)
    beijos

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  2. Eu acho, em tese, que os relacionamentos ditos "liberais" seriam os melhores. Mas repare que eu disse "em tese"- não vivo nem nunca vivi uma experiência do tipo. Será que me adequaria? Será que isso não despertaria o "conservador" que vive em mim?

    Mas, mesmo o relacionamento "tradicional" não precisa ser tedioso. O grande desafio é esse, impedir que a chama apague. Geralmente (99,9999% dos casos) a chama sim, morre. E eis o ciclo, aborrecimento, brigas, aporrinhação etc etc. Daí vem a separação, novo relacionamento e recomeçamos tudo de novo, again and again.

    Quanto ao comunismo, tem tudo a ver com o tema do post. Sendo o marxismo a teoria do movimento, como diz Trotsky, é exatamente anti-tédio, anti-status quo, anti-conservadorismo. E se colocarmos literatura junto, melhor ainda. Maiakovsky: "Chegarei até vocês no comunismo longínguo/ Mas não como os poetas saudosistas, à moda de Iessiênin".

    ("portanto, aqui estamos nós misturando Revolução com Literatura e ambas combinam ...", Bukowski, "Notes of a dirty old man")

    Mas, se realmente você tem interesse nesse assunto, podemos sim trocar emails a propósito, seria um prazer.

    Aliás e a propósito, eu entendo que a monogamia começou com a propriedade privada (está em Engels em "A origem da família, da propriedade privada e do Estado", por exemplo). Por isso que sou contra ambas, rs.

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  3. Oi!

    Acabei por escolher pegar o "Trópico de Capricórnio" para ler. Sinta-se responsável, rs.

    Eu acho o título do post uma grande questão. Tédio e vida. Acredito que, geralmente, andam em par. Em alguns intervalos de paixões por pessoas ou por coisas ou por planos, não sei, o tédio desaparece, respiramos e vivemos aquilo. Mas, depois, volta.

    De qualquer forma, gosto de pensar na possibilidade de uma vida entusiasmada, e livre. Talvez perseguir esse "ideal" fomente a vida, faça os dias correrem. É melhor que se entregar ao lastimoso tédio, acho.

    Quanto ao amor/relacionamentos liberais, acho lindos em ideia (em teoria, rs), e é bom falar sobre eles; mas, são bem alarmantes na prática. É complicado e alguém sempre sai mal, um mal pior que em um relacionamento "tradicional" que acaba. Bonito de se ler e almejar, mas, ao meu ver, praticamente impossível de fazer funcionar.

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  4. Boa Noite, Tejo.

    “Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?” Acredita que ainda não li esse livro, preciso descobrir a resposta. rs. Partindo desse princípio temos - homens e mulheres diferentes - e assim sendo, eu acredito que para o homem é mais fácil encarar o relacionamento aberto (não generalizando, há exceções), já que a mulher vê o sexo com uma parcela de ‘afetividade’, não digo necessariamente amor, e o homem não. Eu particularmente teria certa dificuldade por rolar ciúmes e tudo mais... Ah! Mas até que ponto relacionamento aberto é liberdade, se tudo que for acontecer tem que ser conforme a permissão do parceiro - rédeas... Sei lá, penso assim... rs

    Um bom post. Abraços.

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  5. Realmente...O assunto é complexo. Apenas posso -podemos, como vi pelos comentários, rs- conjeturar sobre tudo isso.

    Em todo caso, os relacionamentos são apenas um capítulo nesta relação "tédio x vida".

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  6. Bom, me identifiquei com o segundo capítulo, pois concordo com liberdade, principalmente a feminina. Viver não tem forma e nem conceitos mas veracidade de seguir seus objetivos. E quanto ao amor, esse deve ser mantindo enquanto dure paixão independente de prazo, por que depois de vencido, fica-se apenas amisade.

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  7. O amor padronizado culturalmente nos conduz a esse tédio que acaba incorporado na vida que vivemos, violenta nossos sentimentos e acaba por limitar a propria liberdade.
    Porque atinge o pensamento.
    E o pensamento é um tramsporte que não falha, mas precisamos ir onde realmente queremos e não onde está padronizado que devemos ir.

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