13 de jun de 2010

Contra o pensamento binário (de novo)

Até Jacarepaguá é um bom pedaço, mas não estou sozinho. Levo comigo Trotsky em biografia: queria poesia, queria literatura, mas Trotsky é ele também poesia. E como não? Engajar-se na Rússia czarista é poesia, fazer a revolução é, ser o presidente do Soviete de Petrogado é, presidente do Comitê Militar Revolucionário, Comissário do Povo para a Guerra é...Fundador do Exército Vermelho. Depois a perseguição, a calúnia e o exílio, mantendo sempre a fina dialética viva, até a morte, à traição -como é de praxe- pelo agente stalinista. Quem não enxergar poesia nisso tudo não entende de poesia, é um aleijado, humanamente falando.

Uma coisa que acontece é que muitos não querem saber de poesia- real ou figurada. Poesia é meio que um desvio na mente dessas pessoas, eles que abraçaram o obscurantismo. Eles que têm a dialética de uma porta. Você que tem um animal de estimação, faça o teste: mais fácil o bicho entendê-los do que esses de quem falo. Os stalinistas são desse gênero de porta. Torno a esse assunto sem receio de me tornar monotemático. Porque é um assunto ainda palpável, ainda vivo e, como tal, preocupante. Preocupante para todos nós que reivindicamos o marxismo e o leninismo e, como tal, não podem abrir mão da dialética. E o stalinismo é o inimigo número um da dialética.

Que o stalinismo esteja vivo nos mais velhos, é compreensível. Pegaram aquela época, descobriram o marxismo e o leninismo naquela época. Fica difícil, a essa altura da vida, se livrarem do paradigma. Mas o stalinismo faz muitas vítimas dentre os jovens, também. É verificável por exemplo nessa ferramenta moderna, o Orkut. Como dão vontade de chorar aqueles que, se definindo em seus perfis como "libertários ao extremo", têm Stálin como referência. Não percebem que não escapariam. A não ser que lambessem botas. A não ser que renunciassem ao pensamento crítico. A tudo que é novo, dinâmico, rebelde, lírico, vivo. Que renunciassem ao próprio marxismo, enfim. Eles, que se tomam por revolucionários, deveriam renunciar à própria Revolução para sobreviverem sob Stálin.

Muitos não se importariam de abrir mão disso tudo, naturalmente. Muitos abortariam a própria mente, como a um feto indesejado, conquanto que tenham um "Guia Genial" a orientá-los. Esses são os mais felizes coveiros da Revolução. O que quer que não entendam, esse é o inimigo do povo. O hermético, o místico, o desafiador, isso é contrarrevolucionário. "Para o fogo", dizem, "tudo que é movimento". E o marxismo, que é a teoria do movimento (Trotsky), vai junto para as fogueiras da Inquisição.

Desvio o olhar do livro e olho pela janela do ônibus. Bons prédios, em Vila Isabel. Um me agrada em particular, entrada discreta e aprazível, típico edifício de classe média, com um bom e velho boteco bem do lado. Ideal para uma pausa antes de subir. O que seria um problema, naturalmente. Já passamos pela praça Barão de Drummond, mas esqueçamos as ruas e voltemos para o livro. O livro...

...e, ah, tu, Victor Serge...És trotskista? Confessa. Confessa enquanto te apertamos, enquanto ameaçamos, implícita e explicitamente. Confessa: mas vede que capitular não adianta. Antonov-Ovseenko capitulou. Mas isso não adiantou, não foi mesmo? Não adiantou para salvá-lo, ele que foi o dirigente-chefe da tomada do Palácio de Inverno. Se isso não adiantou com ele, por que te adiantaria, Victor Serge? Ah, mas tu não és de capitular. Às vezes é preferível a morte...Mas não foi preciso tanto. Do exílio, conseguiste a liberdade. Liberdade relativa. Tolhida, ameaçada, até a morte na miséria. Mas foi uma vida de homem, Victor Serge. De um revolucionário.

E tu, Pasukanis? Crês que o stalinismo é ambiente para as finas discussões jurídicas? A pena não resiste à bota stalinista. Como, divergências doutrinárias? Ou é pela escola oficial ou é a morte. Para ti, foi a segunda opção. Passaste por tortura, Eugeny? Quem poderá dizer? Quem sabe a dor no cárcere, a humilhação e a aniquilação do ser, naquelas horas sombrias? Eugeny Pasukanis, desaparecido nas masmorras. Menos uma mente que pensa. Os verdugos esfregam as mãos contentes- mas não saciados.

E também tu, e tu, e tu, e também...Mas para quê enumerá-los?

Assim o stalinismo faz de Lênin um imbecil. Porque, cercado de "contrarrevolucionários" por todos os lados, não os reconheceu. Todos bandidos e traidores! Só Lênin não via. Falei disto neste post. A Revolução foi feita por traidores, dizem o stalinistas. Maior infâmia não pode existir.

A estrada Grajaú-Jacarepaguá chega ao fim, e minhas reflexões também. Está gelado dentro do ônibus estilo "frescão". Gelado como a Sibéria, como o coração, antidialético, de uma porta stalinista.

A imagem do post é Victor Serge (1890- 1947), autor de, dentre outros, "O Ano Um da Revolução Russa". Eugeny Pasukanis (1891- 1937?) foi Vice-Comissário do Povo para a Justiça e autor do clássico "A Teoria Geral do Direito e o Marxismo". Exemplos de homens que o stalinismo ceifou, indireta (no caso de Serge), e diretamente, caso de Pasukanis.

2 comentários:

  1. Bom saber que uma "viagem" até Jacarepaguá é capaz de gerar bons frutos... Sou sua fã, sabia? :)

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  2. Nesse texto você disse tudo o que penso acerca do maldito Stálin.

    Realmente, adorei o texto!!!

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