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14 de ago. de 2010

Perfumes

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Exupéry diz, em "Terra dos Homens", obra da qual já falei (aqui e aqui) que o cheiro de mar, para quem o sentiu uma única vez, não pode mais ser esquecido. Não pego o livro há um bom tempo, mas a ideia passada é exatamente essa. Eu, que passei a infância e adolescência em um bairro litorâneo, Copacabana, sei exatamente o que é isso: o quanto o cheiro do mar é marcante, é indelével. Um perfume salgado que remete a amplidões, que traz consigo visões de pequenos barcos de pesca da Colônia de Pescadores, no Posto 6. Onde há o pequeno santuário de Nossa Senhora, de manto azul- azul como esse mar que, quando à noite passeamos pela areia, aspiramos. O cheiro não vem sozinho, como se vê. Há a sensação da areia molhada sob os pés e o barulho do mar. O mar, pelo mero fato de existir, atinge-nos todos os sentidos.

Nas Barcas, a caminho de Niterói, também há esse cheiro. Mas já conspurcado, já vilipendiado, como um santuário profanado. O que é natural, em outros lugares, na Baía de Guanabara é poluído, toda a carga de dejetos que nós, seres humanos, reiteradamente despejamos sobre a natureza. E ei-la fétida, águas macilentas, amareladas. Mas ainda assim águas, ainda assim mar: sofre, mas não é avara, a natureza. Por sobre todo o fedor dos detritos, ainda nos dá, sutil que seja, o mesmo perfume de mar. E tornamos a nos sentir em casa, mas em casa num sentido mais profundo.

27 de jun. de 2010

Observando (e um pouco de zen)

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Considero-me observador. É difícil esquecer um nome, um rosto. Cá no meu canto, enquanto aguardo – filas, guichês, ônibus – faço um rastreamento das coisas ao me redor. É um passatempo; tanta diversidade, tanta riqueza ao alcance de nosso olhos. Não é um cinema, mas pessoas reais, de carne e osso. E como isso é mais rico que o cinema, poucas pessoas se dão conta.

Por exemplo, estou no tribunal – não importa qual, nem o dia. O debate se desenrolava no plenário. Não uma sessão de julgamento, com todos os rigores solenes, mas sim juízes e advogados abordando temas em comum, um tipo de procedimento corriqueiro naquele tipo de Justiça. No fundo do plenário, oculta pela penumbra, lá estava ela. Sendo os cabelos e as roupas escuras, apenas o rosto alvo se destacava. Era bonita, eu pude notar, não a beleza gritante da juventude, mas madura, menos pela idade e mais pela postura. Juíza... Todo o modus operandi de uma austera autoridade. Foi enquanto transcorria o debate no plenário que a descobri, lá, parada, em pose de Helena Blavatsky. Pois era teosófica sua pose, sua postura, seu olhar. Teosófico, se é que podemos definir assim uma pose, uma postura, um olhar, mas nenhum outro termo seria mais adequado. E o olhar, eu percebia bem, estava em mim. Talvez não em mim, propriamente, mas no espaço físico etéreo-astral onde eu me situava, aqueles olhos de Blavatsky perscrutando o que os nossos, de leigos, não conseguem. Talvez eu não estivesse ali, pra ela. Olhava através de mim. Seja como for, precisei quebrar o encanto para prestar atenção no debate que se desenrolava.

18 de jun. de 2010

Um barulho na noite

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Abro os olhos. Uma pena- o sonho estava bom. Revisitava uma praça da minha infância, no bairro Peixoto, Copacabana. Estava mudada: o cenário era estranhamente botânico, digamos assim, plantas e flores para todos os lados, mas os brinquedos os mesmos, como costumavam ser, cheia de crianças. Enfim, um sonho agradável, nostálgico, mas com um pano de fundo de mistério, digamos assim de novo, como convém a todo bom sonho e ao id e seu domínio. Mas como dizia, abro os olhos e tudo se esvanece: acordo com um ruído no quarto. Intrigado tento, como um animal de sentidos desenvolvidos, apurar os ouvidos no escuro e identificar a fonte do ruído. Não consigo.

Sento na cama, ainda no escuro, conjeturando. Seria o ventilador, que, mesmo em dias frios, tenho o hábito de deixar ligado? Seriam cupins no armário? Seria...seria...? As hipóteses iam sendo descartadas conforme surgiam. Restava, ah, não, não pode ser, não o sobrenatural. A mais implausível das possibilidades. Mas implausível hoje. Houve tempo de temor supersticioso, de crucifixos e dente de alho no bolso, tempos de sinal-da-cruz e pai-nossos. Mas é passado, ficou para trás nas névoas da minha Idade Média particular.

1 de jun. de 2010

Tédio e vida

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Parece que os espíritos tendem a ser atraídos para a mediocridade. Em todos os campos, em todas as esferas de atuação humana- no amor inclusive, e principalmente, haja visto que a maioria (absoluta) dos relacionamentos deságua naquele fantasma inexorável, o tédio. É aquela história: façamos o que for, acabamos por nos conformar, nos habituar, castrando qualquer outra possibilidade de mudança. Triste, principalmente, quando sequer nos damos conta disso, e nos contentamos com nosso pequeno mundo. E enxergamos nele o ideal de felicidade que pedimos a Deus.

Não quero ser intolerante. Acredito que as pessoas têm a liberdade de seguir rigorosamente o tipo de vida que quiserem, mesmo que esse tipo possa parecer inadequado ao olhos dos outros. Defendo a liberdade plena- por ser comunista, sou libertário. A pessoa deve ser livre até para cercear a própria liberdade, se assim quiser. O que acho que é essa liberdade, justamente para fazer jus a esse nome, deve ser consciente, voluntária. E não imposta por padrões preconcebidos e arcaicos. A "tradição" é um perigo. A mulher aceita ser reduzida a uma dona de casa geradora de rebentos simplesmente porque sua avó, e a avó de sua avó, eram assim. E acha que esse é o papel dela, também. Isso não é liberdade: é lavagem cerebral, é a reprodução acrítica de um comportamento.

26 de mai. de 2010

Falando de horas

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1. O melhor horário para mim -o mais misterioso, digamos assim- são as 18:00.  É uma espécie de interlúdio entre duas fases, onde noite e dia se misturam, se mesclam, copulam. Encerra-se o ciclo: o dia acaba, e adentramos o reino da noite. Estamos no limiar, daqui pra frente é a noite e seu domínio.  É a hora da Ave-maria, é a hora, não sei por quê, em que me vêm à mente lembranças de praças arborizadas.

2. Ao meio-dia, o sol parece estar zangado. Despeja aqui embaixo sua fúria, condensada em raios e mais raios. Impressionante: arde. Queima a pele. Daí pensamos em todas as notícias cataclísmicas que recebemos da mídia, sobre fim do mundo e efeito estufa. Derretimento dos pólos. Quando era menino, o ano 2000 seria o final dos tempos. Falávamos brincando, mas havia um pouquinho de medo da profecia mesmo no espírito infantil. Já se passaram 10 anos de 2000, e cá ainda estamos. O mundo acaba diariamente para quem morre, é simples assim. Por que tanta coisa e tanto Nostradamus? Mas, é meio-dia e o sol é apocalíptico.

O que motiva essa fúria do sol? E sofremos nós todos aqui embaixo, eu mais que todos, maldito quem disse que advogado nos trópicos precisa de paletó.

14 de mar. de 2010

Meditando sobre a morte

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Michel de Montaigne diz que "meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade", afinal "quem aprende a morrer desaprende de servir". Boa frase, que faz sentido. Claro que podemos, e devemos, buscar a liberdade nesta vida, mas ninguém nega que a morte seja boa redentora das misérias do cotidiano. Montaigne, aliás, tal apologia faz da morte que recebeu severa reprimenda de Pascal. Para Pascal, as opiniões de Montaigne inspiram "indiferença pela salvação sem temor e sem arrependimento", pois "em todo seu livro ele só pensa em morrer covardemente e com moleza". Mas Pascal era católico. A religião pode servir -e geralmente, em regra mesmo, tem servido- para embotar o espírito do livre-pensador. Quantos vôos mentais são cerceados, quando se inculca neles o dogma religioso?

Mas em todo caso não é esse o enfoque que gostaria de dar sobre esta minha "meditação sobre a morte". Há pouco, morreu uma cachorrinha da minha casa. Uma doença que se tornou crônica, irreversível, que culminou com uma falência múltipla de órgãos. Resultado, morte para o animalzinho e dor para os donos. 

11 de set. de 2009

Fotos suas

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Tenho um lado gótico. Atrai-me a temática chuvosa, nebulosa, sombria da vida. Não que eu seja depressivo (apesar de ter, naturalmente, meus momentos): gosto da estética, não do ser. A forma, e não a essência. É uma paixão às vezes incompreendida. Por exemplo, tempos atrás, no orkut, coloquei um retrato daquele outro sombrio, Baudelaire, com os célebres versos "Gloire et louange à toi, Satan, dans les hauteurs/ Du Ciel, où tu régnas, et dans les profondeurs/ De l'Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!/ (...)". Vieram me perguntar se eu era satanista...

Bem, o lado gótico da vida é extremamente rico- e poético. Não por acaso já falei aqui de meu contágio por Augusto dos Anjos, outro dos poetas malditos, que como ninguém soube retratar o aspecto down do cotidiano. Os românticos e os simbolistas (além de Augusto, que não era de escola alguma, "isso de escola é coisa pra medíocres", disse falando dele Órris Soares) são pura poesia gótica, depressiva, mística, sombria.

8 de set. de 2009

O pop não poupa ninguém

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Tenho o fetiche da "primeira vez": acho que aquilo que inaugura tende a marcar pra sempre. Vale pra tudo, primeiro beijo, primeira mulher, livros, contatos sociais ("a primeira impressão é a que fica!") e, obviamente, discos. Milhares de experiências se passarão, sempre haverá, forte na memória, a primeira. Sou com orgulho um saudosista.

Aí do lado está a capa de "O papa é pop", de 1991, meu primeiro contato com a música. Antes eu já ouvia, claro. Lembro com saudades (olha o saudosismo aí) das canções dos anos 80, o chamado BRock, que em pleno século XXI é até hoje insuperável. Mas é diferente. Os anos 80 estão em mim, de modo indelével, mas me atingem de forma quase inconsciente, vaga, onírica. Nasci em 78, afinal de contas. São músicas que acompanharam a infância e, se hoje lembramos com carinho, na própria infância não se esquenta muito com isso.

27 de ago. de 2009

O "não-querer" é contrarrevolucionário

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É dito que a felicidade é a coincidência entre o que se VIVE e o que se DESEJA. O que se vive é objetivo; não se pode mudá-lo pela força de vontade (falamos disso em Base e superestrutura. E Chopin). Mas a sua identidade com aquilo que queremos é, se não impossível, raro. Como evitar a infelicidade, então, já que não podemos mudar a realidade objetiva? A solução seria não desejar. A saída budista, que vê no "apego" a raiz do sofrimento.

O que pega aí é que, penso eu, sem DESEJO, o mundo não avança.

Já falamos: o problema material deve encontrar uma solução material. Mas é o impulso, vale dizer, a vontade de homens conscientes que criará a solução. O "não-querer" é a inação. O universo não é estático- avança, avança, quando pára de andar é porque morreu, como diz Engels no "Anti-Dühring".

16 de ago. de 2009

Cartas, emails - e Lukács

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Também as cartas de Maiakovsky a Lília Brik emocionam; na verdade, quaisquer cartas emocionam, pois não é possível adentrar a intimidade alheia sem que se identifique com o remetente. Partilhamos assim das mesmas dores, sensações, angústias em um exercício, é preciso dizer, de pura indiscrição. Mas uma indiscrição comovente, doce, e ei-nos íntimos do devassado.

Hoje em dia é email. Será que os emails trocados -tantos anseios- são guardados, conservados, para publicação post mortem? Arquivos e mais arquivos desnudados aos olhos do público, a quem interessar possa. O triste é que email não tenha um pingo da densidade dramática de uma carta do passado. À base do "pq vc naum" assassinamos a língua e, de forma telegráfica, levamos adiante os sentimentos estropiados. Saramago, que tem um blog, ao falar do twitter (que permite mensagens de até 140 toques), lembrou que o ser humano caminha para o monossílabo, e que, de "degrau em degrau, caminhamos para o grunhido".

10 de jul. de 2009

Minha visão de Deus

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Deus para mim é um homem azul, exímio arqueiro, exilado na floresta com o irmão e a esposa. É um deus que não conhece a própria divindade; é preciso que o lembrem, para então ouvirem dele, "sou apenas um mortal, da linhagem de Raghu". Não, sóis Deus- se o mundo existe é por vossa causa. Acontece é que, para restabelecer a unidade, encarnais ciclicamente entre os mortais.

Esse deus é humilde: beija os pés de quem quer que mereça. Querendo a paz mas apto para a guerra, não mede conseqüências para preservar sua honra. Enfrenta um exército de demônios para resgatar a esposa- atravessa o próprio mar para isso.

É um deus capaz de despertar um amor tão sublime, que o arquétipo do devoto ideal é justamente seu seguidor: vive literalmente em seu coração e, por seu amor, o devoto é capaz de cruzar os oceanos, em um único salto.

23 de set. de 2008

Versos de biblioteca

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Enquanto esperamos os livros, vem um certo tédio. A ansiedade pelo estudo, de um lado, e a monotonia da espera, de outro. Daí, aproveitando o silêncio, é possível que a musa cante despretensiosamente:

Silêncio
Zumbido chiado ar-condicionado
Vento que entra
Mulata ao lado
Que desconcerta
O Aliomar Baleeiro
Que fica
De lado.

14 de set. de 2008

A cidade e o fim de semana

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Sábado à noite
Saio pela porta e passo a chave. A rua está escura: o poste está queimado. Aquela semi-escuridão, pontilhada pelas luzes das casas e faróis que passam, dá à rua a aparência de um conto de fadas. A rua Paula Mattos, em Santa Tereza, esta noite tem um ar de vila do Senhor dos Anéis.

Domingo de manhã
Leio em determinado jornal (daqueles de direita, mas qual não é, meu Deus?) simpática crônica de um artista angolano sobre o bairro das Laranjeiras. Fala da Rua Alice, da General Glicério, da Rua das Laranjeiras...E só. Ora, qualquer crônica sobre Laranjeiras, que não cite o Fluminense Football Club...É defeituosa, falha, incompleta.

7 de dez. de 2006

"A propósito disto", em três curtos atos

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1
Converso com ela pelo ciberespaço. Através de íons, elétrons, prótons, quarks, raios gama e x, pela nuvem de neutrinos, temos a nossa conversação- e é através desse meio fluídico que trocamos palavras de amor. Sim, pois já não resta dúvidas de que estamos apaixonados, o turbilhão cósmico já nos capturou, é a deusa Vênus que nos embala no leito.
2
Estive mais cedo na feira de livros. No vento gelado que entrava pela roupa, em meio a livros de vodu, xadrez, materialismo dialético, romances de Sholokhov, em tudo sinto a presença dela. "Também pensa em mim?", suspiro bem suavemente no canto da mente. Não é mais no ciberespaço, mas através do fluido vital, ali mesmo, naquele exato momento, que nos tocamos.

26 de set. de 2006

Um sonho qualquer

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Era um sonho em que escalava prédios, edifícios, construções, sempre pra cima, cravando as unhas no concreto, no reboco, e olhando do alto a cidade- e daí vinha a vertigem e o medo real da queda.

Disso, temos outro cenário: olhamos de cima, como se flutuássemos no teto. É um quarto, ocupado no centro por uma cama coberta de tecido púrpura e ao canto uma escrivaninha. Sei que é um quarto de poeta -no sonhos, sabemos cada detalhe que precisa ser conhecido- e sei que houve ali uma tragédia, ou ao menos algo digno de pesar. O tal poeta morreu; e foi por amor que ele morreu. Um balaço na testa, cianureto com vinho, não importa, foi uma morte passional.