Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens

24 de set. de 2010

African herbsman (e um agradecimento)

4 comentários
Na última postagem falei em Bob Marley. Foi tão en passant que queria voltar ao assunto, e com certeza tio Bob merece uma postagem própria (e na verdade me surpreendo ao ver, quatro anos de blog depois, que ainda não tenha escrito mais a fundo sobre Marley; a única referência, olhando pra trás, é a ilustração do post Sobre ópios e fermentos, "O olho de Jah", que achei em algum lugar pelo google).

Nunca fui propriamente "regueiro". Até pode-se dizer que conheço pouco: algum Black Uhuru, Yellowman, Israel Vibration, Jimmy Cliff (óbvio), e fico por aí. Era, isso sim, bobmarleyzeiro: tinha camisa, pôster no quarto e fita tricolor etíope (aquela verde-amarela-vermelha) no pulso. A idade ajudava: ainda tava no segundo grau, ainda não tinha adentrado os portões austeros e conservadores do estudo do Direito. Comecei a ouvir Bob Marley através -hoje dá até vergonha- do Cidade Negra, vergonha porque há muito esse grupo (ainda existe? o Toni Garrido tá fazendo novela) virou pop, longe da verve original da época do Ras Bernardo.

O que exatamente me cativou em Bob Marley?

17 de set. de 2010

Música e rebeldia

3 comentários
Bad Religion é legal porque, ao lado da verve punk, há o ritmo melodioso. Daí "hardcore melódico", que é a vertente californiana do estilo, em oposição ao hardcore nova-iorquino, que é o "hardcore pau", tipo pa-pa-pa. Pelo menos era assim que se dizia, há uns 10 anos atrás, quando eu comprava "Rock Press", finada revista sobre, obviamente, rock.

Não é verdade que rock seja música "rebelde". É tão rebelde quanto qualquer outro estilo musical possa ser. "Almas rebeldes" temos em quaisquer acordes, reggae por exemplo ("Soul rebel" é o nome de uma música de Bob Marley) ou MPB, com toda a subversão -camuflada que fosse- de um Chico Buarque diante da ditadura. Ademais, ser rebelde não quer dizer grande coisa por si só. Não é sinônimo de progressismo, por exemplo. Pode-se ser um reacionário rebelde, se insurgindo contra os avanços sociais. O "rebelde sem causa" é uma coisa vazia, fútil. É um pequeno burguês.

27 de ago. de 2010

Nos portões do cemitério, com The Smiths

5 comentários
"Cemetry gates" me remete a 1996, que foi quando ouvi "The Queen is dead" pela primeira vez. Comecei a ouvir os 80's não propriamente nos 80's, mas sim com quase uma década de atraso. Não faz mal: cá estamos nós, antes de irmos para o Empório, em Ipanema, ouvindo The Smiths derramando aquela poesia toda. Poesia mesmo: a letra, uma das mais líricas que já vi, é nada mais nada menos que um passeio, portas do cemitério adentro, por entre túmulos de antigos poetas. A voz peculiar de Morrissey (que vulgarmente chamamos de "estar com um ovo na boca") carrega no "Waaalllde", referência ao seu Oscar querido, ao passo que também Keats e Yeats aparecem, em espírito, pelo menos.

Oscar Wilde já é citado no blog, em uma postagem sobre seu "A alma do homem sob o socialismo". Era não apenas poeta e dramaturgo, mas também um sujeito politizado, como se vê; terminou seus dias humilhado e degradado, condenado que fora por sodomia, crime na Inglaterra vitoriana. William Butler Yeats (1865- 1939) foi um poeta irlandês, e John Keats (1795- 1821), inglês, ambos referências de Morrissey. As letras dos Smiths são sempre recheadas de referências literárias ou históricas, como por exemplo Joana D'Arc em "Big mouth strikes again" e Antônio e Cleópatra em "Some girls are bigger than others". Música culta e pop ao mesmo tempo, portanto, diferente das banalidades dos últimos 20 anos.

1 de jun. de 2010

Tédio e vida

7 comentários
Parece que os espíritos tendem a ser atraídos para a mediocridade. Em todos os campos, em todas as esferas de atuação humana- no amor inclusive, e principalmente, haja visto que a maioria (absoluta) dos relacionamentos deságua naquele fantasma inexorável, o tédio. É aquela história: façamos o que for, acabamos por nos conformar, nos habituar, castrando qualquer outra possibilidade de mudança. Triste, principalmente, quando sequer nos damos conta disso, e nos contentamos com nosso pequeno mundo. E enxergamos nele o ideal de felicidade que pedimos a Deus.

Não quero ser intolerante. Acredito que as pessoas têm a liberdade de seguir rigorosamente o tipo de vida que quiserem, mesmo que esse tipo possa parecer inadequado ao olhos dos outros. Defendo a liberdade plena- por ser comunista, sou libertário. A pessoa deve ser livre até para cercear a própria liberdade, se assim quiser. O que acho que é essa liberdade, justamente para fazer jus a esse nome, deve ser consciente, voluntária. E não imposta por padrões preconcebidos e arcaicos. A "tradição" é um perigo. A mulher aceita ser reduzida a uma dona de casa geradora de rebentos simplesmente porque sua avó, e a avó de sua avó, eram assim. E acha que esse é o papel dela, também. Isso não é liberdade: é lavagem cerebral, é a reprodução acrítica de um comportamento.

17 de nov. de 2009

Arte para todos (com ou sem piratas)

10 comentários
Há pouco tempo fiz uma postagem defendendo o trabalhador informal da repressão fascista da Guarda Municipal de Eduardo Paes (que tem em seu governo o Partido Comunista -sic- do Brasil, mas isso é mero detalhe, aos conciliadores -ou oportunistas- já dediquei os seguintes versos). Usei como símbolo, como arquétipo de camelô perseguido, o vendedor de CDs piratas. Porque música é uma das coisas mais belas da vida. Inclusive na postagem identifico a música com a própria "alegria", simbolicamente falando.

Uma companheira trouxe um viés crítico: o produto comercializado pelo camelô tem origem criminosa. Indiretamente, o camelô faz parte de uma cadeia criminosa.

20 de set. de 2009

A chicotada na mesmice

4 comentários
Leio sobre Claude Debussy: ao compor uma cantata, teve a obra execrada no meio musical, que lhe apontou vários defeitos. Isso levou o compositor a dizer: "Por fim escrevi algo original!".

O original é tomado por "errado", por "imperfeito", pelo mundo acadêmico, o mundo "oficial". Não é só Debussy, não é só a música que passa por isso: todo inovador recebe a pecha de "não presta" por parte das "autoridades" da matéria.

As autoridades são reacionárias. Cheiram a passado. O papel da arte deve ser a ruptura, justamente, com o passado. Maiakovsky, no poema "Verlaine e Cézanne", ao dialogar com o pintor, diz

11 de set. de 2009

Fotos suas

5 comentários
Tenho um lado gótico. Atrai-me a temática chuvosa, nebulosa, sombria da vida. Não que eu seja depressivo (apesar de ter, naturalmente, meus momentos): gosto da estética, não do ser. A forma, e não a essência. É uma paixão às vezes incompreendida. Por exemplo, tempos atrás, no orkut, coloquei um retrato daquele outro sombrio, Baudelaire, com os célebres versos "Gloire et louange à toi, Satan, dans les hauteurs/ Du Ciel, où tu régnas, et dans les profondeurs/ De l'Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!/ (...)". Vieram me perguntar se eu era satanista...

Bem, o lado gótico da vida é extremamente rico- e poético. Não por acaso já falei aqui de meu contágio por Augusto dos Anjos, outro dos poetas malditos, que como ninguém soube retratar o aspecto down do cotidiano. Os românticos e os simbolistas (além de Augusto, que não era de escola alguma, "isso de escola é coisa pra medíocres", disse falando dele Órris Soares) são pura poesia gótica, depressiva, mística, sombria.

8 de set. de 2009

O pop não poupa ninguém

7 comentários
Tenho o fetiche da "primeira vez": acho que aquilo que inaugura tende a marcar pra sempre. Vale pra tudo, primeiro beijo, primeira mulher, livros, contatos sociais ("a primeira impressão é a que fica!") e, obviamente, discos. Milhares de experiências se passarão, sempre haverá, forte na memória, a primeira. Sou com orgulho um saudosista.

Aí do lado está a capa de "O papa é pop", de 1991, meu primeiro contato com a música. Antes eu já ouvia, claro. Lembro com saudades (olha o saudosismo aí) das canções dos anos 80, o chamado BRock, que em pleno século XXI é até hoje insuperável. Mas é diferente. Os anos 80 estão em mim, de modo indelével, mas me atingem de forma quase inconsciente, vaga, onírica. Nasci em 78, afinal de contas. São músicas que acompanharam a infância e, se hoje lembramos com carinho, na própria infância não se esquenta muito com isso.

7 de ago. de 2009

Base e superestrutura. E Chopin.

0 comentários
Quero dizer: o Espírito fortalecido (através das Artes, da Religião, da Filosofia) suporta melhor as atribulações materiais, mas sem ser capaz de superá-las. O espírito não vence a matéria. Afinal, um problema material deve encontrar uma solução material, ou, como diz Marx ("Introdução à Crítica...") o poder material deve ser deposto pelo poder material. A superestrutura (Artes, Religão etc. etc.) apenas alimenta- serve como analgésico, um paliativo, enfim.

Não é muito- mas como a vida seria insuportável sem esse pequeno remédio! É justamente a superestrutura que permite à vida ser suportável. Sem o "torpor" da superestrutura, como seria árduo.

Não quero dizer com isso que devamos nos alienar. Alienação (alheamento) é a não-identificação com o mundo. Nós, ao contrário, conhecemos o mundo, sabemos onde pisamos, ou, ao menos, combatemos (tentamos combater) essa tendência. Apenas reconhecemos na superestrutura esse caráter suavizante. E felizmente ela o tem.

18 de mar. de 2009

Starry Starry Night

0 comentários
Acordo com Don McLean cantando "Vincent"- não há maneira mais doce, e mais melancólica, de despertar. "Agora entendo o que você tentou me dizer", diz a letra, "como sofreu por sua sanidade". Como tentou libertá-los e como eles não ouviram, e talvez nunca ouvirão. Eles, quem? Os homens. O instrumento de libertação? A arte, e nenhum outro.

Vincent é Vincent Van Gogh. Sobre quem Henry Miller escreveu, no Plexus: "O que me encantava era o desejo ardente de Vincent de viver a vida de um artista, nada mais ser do que um artista, acontecesse o que acontecesse. Com homens dessa têmpera, a arte se torna religião". Miller continua, lembrando as críticas que o pintor sofrera de seus contemporâneos, "Pobre Van Gogh! Rico Van Gogh! Todo-poderoso Van Gogh!", o artista que, enfim, os venceu a todos. Mas só depois: em vida vendeu um único quadro.

12 de ago. de 2008

O Artista do Povo

0 comentários
Uma coisa interessante em Dmitri Shostakovitch (1906- 1975) -e que serve para desconcertar os reacionários- é o fato de ter, até o final da vida, se mantido junto do Estado soviético. Poderia ter fugido; poderia ter desertado e ido fazer fortuna no Ocidente- oportunidades para isso teve, afinal. Mas Shostakovitch tomou outro rumo.

Naturalmente, após a fase áurea de Lunatcharsky, as artes soviéticas entraram em um momento delicado, não tendo sido o cenário ideal para um artista. Independentemente de causas ou explicações, seria hipocrisia negar isso. Maiakovsky também foi dos que se ressentiram disso, e a censura sobre a atividade artística em voga pode ter sido um dos elementos a mais em sua opção pelo suicídio (Maiakovsky se matou por amor, sabemos, mas claro que as críticas que pululavam -"Maiakovsky é incompreensível para as massas!"- tinham o condão de fragilizar ainda mais uma personalidade deprimida).

8 de ago. de 2006

Bach, ou a chave de prata

3 comentários
Mais que um leigo, sou um bárbaro: pouco sei de música clássica. Talvez por isso eu seja atingido com mais facilidade, talvez por isso faltem palavras e assome o espanto, tal qual um primitivo diante do que seja -aos seus olhos- inefável. Como agora: estou deitado na cama, e ouço algo. É Bach? Sim, mas poderia ser música de fada. Suíte nº3, ária na corda sol *. Já agora estou diante do computador, e ainda ouço: impossível não sentir o peso no coração, a quase dor física que nos faz contrair o rosto em aflição, quando as notas entram rasgando suaves, quando somos soterrados pelo vagalhão de melodia que nos lembra de qualquer coisa remota, mas lembra.