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7 de ago. de 2010

Alguns poemas preferidos

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Demorei algum tempo até que tivesse saco para ler a "Ode marítima" inteira, de Fernando Pessoa sob o heterônimo Álvaro de Campos. E que coisa. Como alguém pode se lamentar tanto assim de algo que podia, mas nunca lera até então? A "Ode" é fantástica. É comprida -o que explica a falta de saco inicial- mas acaba por prender do início ao fim, e nos sentimos viajando pelos sete mares, sem sequer tirar os pés do cais do porto. Náufragos e ilhas desertas, barris de rum e almirantes, tudo está lá, todas as "coisas navais, velhos brinquedos de sonhos", e, por sobre tudo, Aquela, cujo espírito de bruxa dança, figuradamente, enquanto a carnificina pirata é consumada em alto-mar. Que imagem feminina linda. Cruel e sensual. Vejo então o quanto gosto de mulheres de espírito de bruxa.

Esse cenário marítimo nos leva, com o narrador do poema, ao delírio. Ele sente na carne o que é sofrer, e não só isso, o que é incutir, um ataque pirata. Nessa parte o poema se torna sanguinário e é preciso criar um Deus novo que dê conta disso, não um deus qualquer mas um "Deus dum culto ao contrário". Sentimos, junto com Álvaro de Campos, o que é ser o "pirata-resumo" e a "vítima-síntese", mas só até que o delírio passe: cá estamos de novo, defronte ao cais, olhando, serenos, o navio que se perde no horizonte.

26 de mai. de 2010

Falando de horas

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1. O melhor horário para mim -o mais misterioso, digamos assim- são as 18:00.  É uma espécie de interlúdio entre duas fases, onde noite e dia se misturam, se mesclam, copulam. Encerra-se o ciclo: o dia acaba, e adentramos o reino da noite. Estamos no limiar, daqui pra frente é a noite e seu domínio.  É a hora da Ave-maria, é a hora, não sei por quê, em que me vêm à mente lembranças de praças arborizadas.

2. Ao meio-dia, o sol parece estar zangado. Despeja aqui embaixo sua fúria, condensada em raios e mais raios. Impressionante: arde. Queima a pele. Daí pensamos em todas as notícias cataclísmicas que recebemos da mídia, sobre fim do mundo e efeito estufa. Derretimento dos pólos. Quando era menino, o ano 2000 seria o final dos tempos. Falávamos brincando, mas havia um pouquinho de medo da profecia mesmo no espírito infantil. Já se passaram 10 anos de 2000, e cá ainda estamos. O mundo acaba diariamente para quem morre, é simples assim. Por que tanta coisa e tanto Nostradamus? Mas, é meio-dia e o sol é apocalíptico.

O que motiva essa fúria do sol? E sofremos nós todos aqui embaixo, eu mais que todos, maldito quem disse que advogado nos trópicos precisa de paletó.

7 de set. de 2009

Paulo Leminski

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Abaixo, meus poemas favoritos de Paulo Leminski (1944- 1989):

*

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.