Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rio de Janeiro. Mostrar todas as postagens

4 de jan. de 2011

Duas histórias de bar

2 comentários

Havia muitos anos eu não o encontrava. Trabalhava na banca de jornais aos pés do edifício onde morei em Copacabana, e sempre o via subindo de bicicleta a ladeira onde ficava o prédio. Após tantos anos, lá estava ele- grata surpresa. Fiz questão de ir cumprimentá-lo: lembrava de mim, na verdade não era muito mais velho que eu. Palavras amistosas, alguns comentários sobre aquela época. Daí falamos (não sei porquê) em objetivos, perguntei qual era o dele. Respondeu-me com simplicidade, quase dando de ombros: "ficar vivo". Aquilo me tocou e, como mais não podia, deixei uma cerveja paga para ele.

Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.

*

Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.

5 de nov. de 2010

São Jorge dos Revolucionários

6 comentários

Hoje senti vontade de falar com Ogum. No início do ano passado, eu já havia escrito um post sobre sua dança. Agora sinto o Orixá de novo dançando. Desta vez na minha mente, desta vez no espaço-tempo, não mais um menino mirrado na praia de Copacabana, mas um soldado romano de capa vermelha, trajes rotos, mãos sujas de poeira e sangue. Mas o gládio brilha, reluzindo sob um sol imaginário, Jorge da Capadócia, cujo capacete também reluz, Jorge da Capadócia, dançando diante do dragão recém-vencido. Jorge dança, e o universo se torna expressão de sua dança, Jorge, que é Ogum, portanto o movimento, portanto...a dialética.

Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa, a poucos quarteirões de distância do escritório. Naquele burburinho da Praça Tiradentes, em meio a ônibus e comércio da Avenida Passos, em meio a garotas de programa da esquina (sim, mesmo à tarde já se pode encontrá-las), em meio ao calor do horário de verão, lá está a Igreja, e é lá que, quando sinto vontade, encontro Ogum. Antes, Santo Expedito. Expeditus, soldado-lenda, santo-mito (redundância?), indicando que o momento é hoje (hodie) e não amanhã (cras). A ave negra, o corvo demoníaco, repete "cras! cras!" em nossos ouvidos, mas o santo o mantém aprisionado, sob seus pés, dominado. O hoje venceu o amanhã. Não é preciso ser católico, ou mesmo religioso, para captar o que esse romano de lenda quer nos passar, nos ensinar. O ateu "praticante" (coisa ridícula, porque o ateísmo acaba funcionando ele próprio de crença), em sua aversão, em seu pensamento binário acaba por deixar escapar essas lições, porque têm um fundo religioso. Mas tire o fundo religioso e a lição se mantém! O maior dos ateus, não fosse binário, poderia aprender com Expedito. Poderia, quando visse a imagem de Expedito -como estou vendo neste momento, enorme no altar da Igreja- identificar no corvo pisoteado todas as aspirações, todos os sonhos que, por medo e preguiça, deixamos para amanhã. E poderia ouvir o "hodie!", hoje, forte da boca do santo, convidando para a práxis . Como ouço agora. Não existindo, Expedito nos ensina mais que muitos "gurus" reais.

14 de ago. de 2010

Perfumes

3 comentários
Exupéry diz, em "Terra dos Homens", obra da qual já falei (aqui e aqui) que o cheiro de mar, para quem o sentiu uma única vez, não pode mais ser esquecido. Não pego o livro há um bom tempo, mas a ideia passada é exatamente essa. Eu, que passei a infância e adolescência em um bairro litorâneo, Copacabana, sei exatamente o que é isso: o quanto o cheiro do mar é marcante, é indelével. Um perfume salgado que remete a amplidões, que traz consigo visões de pequenos barcos de pesca da Colônia de Pescadores, no Posto 6. Onde há o pequeno santuário de Nossa Senhora, de manto azul- azul como esse mar que, quando à noite passeamos pela areia, aspiramos. O cheiro não vem sozinho, como se vê. Há a sensação da areia molhada sob os pés e o barulho do mar. O mar, pelo mero fato de existir, atinge-nos todos os sentidos.

Nas Barcas, a caminho de Niterói, também há esse cheiro. Mas já conspurcado, já vilipendiado, como um santuário profanado. O que é natural, em outros lugares, na Baía de Guanabara é poluído, toda a carga de dejetos que nós, seres humanos, reiteradamente despejamos sobre a natureza. E ei-la fétida, águas macilentas, amareladas. Mas ainda assim águas, ainda assim mar: sofre, mas não é avara, a natureza. Por sobre todo o fedor dos detritos, ainda nos dá, sutil que seja, o mesmo perfume de mar. E tornamos a nos sentir em casa, mas em casa num sentido mais profundo.

13 de jun. de 2010

Contra o pensamento binário (de novo)

2 comentários

Até Jacarepaguá é um bom pedaço, mas não estou sozinho. Levo comigo Trotsky em biografia: queria poesia, queria literatura, mas Trotsky é ele também poesia. E como não? Engajar-se na Rússia czarista é poesia, fazer a revolução é, ser o presidente do Soviete de Petrogado é, presidente do Comitê Militar Revolucionário, Comissário do Povo para a Guerra é...Fundador do Exército Vermelho. Depois a perseguição, a calúnia e o exílio, mantendo sempre a fina dialética viva, até a morte, à traição -como é de praxe- pelo agente stalinista. Quem não enxergar poesia nisso tudo não entende de poesia, é um aleijado, humanamente falando.

Uma coisa que acontece é que muitos não querem saber de poesia- real ou figurada. Poesia é meio que um desvio na mente dessas pessoas, eles que abraçaram o obscurantismo. Eles que têm a dialética de uma porta. Você que tem um animal de estimação, faça o teste: mais fácil o bicho entendê-los do que esses de quem falo. Os stalinistas são desse gênero de porta. Torno a esse assunto sem receio de me tornar monotemático. Porque é um assunto ainda palpável, ainda vivo e, como tal, preocupante. Preocupante para todos nós que reivindicamos o marxismo e o leninismo e, como tal, não podem abrir mão da dialética. E o stalinismo é o inimigo número um da dialética.

19 de mai. de 2010

Todos os sentidos

2 comentários

1. O que era uma dor forte se transformou num leve incômodo. Correr de jeito nenhum, mas já posso andar sem capengar. Tem algo de ridículo em mancar por aí, mas, pior que isso, é ver como os verdadeiros deficientes sofrem nesse mundo egoísta: degraus altos, escadas inacessíveis – realmente as coisas não são projetadas para os idosos, para os incapacitados. Bem, não estou mancando mais, o corpo se regenera (como tudo vivo) e a vida segue seu ritmo.

Tentei voltar ao muay thai, mas não deu. O joelho (que já era ruim) aguentou só quatro treinos.  Parei mesmo no kruang vermelho-ponta-azul (o kruang é uma faixa amarrada ao braço, um amuleto, entre os lutadores tailandeses, mas que no ocidente é usado como crítério de graduação). O espírito – já tem postagem sobre isso – é invencível, mas a matéria é fraca. Muay thai pra mim, definitivamente, é passado.

2. O escuro tem algo de mágico. Estamos de olhos bem abertos, mas nada vem- só o negrume, como um vazio, como um nada que, na verdade, é repleto de mistério. Afinal, não vemos, mas as coisas estão lá. Elas apenas não aparecem para nós, mas estão lá. Quem disse que as coisas precisam de nós? O escuro tem algo de cósmico. Caminhar às escuras é a sensação que, acredito, tem o meteoro, quando atravessa o breu universal.

2 de out. de 2009

Demagogia e papel picado

7 comentários
Centro da Cidade. Saio do escritório para almoçar e ouço, ainda no saguão no edifício, os gritos na rua. Começa a chover papel picado. Um sujeito do outro lado da calçada, fazendo graça com os amigos, começa a gritar "vamos comer as norueguesas" ou outro besteirol do tipo. Gritinhos histéricos em toda parte, pessoas aglomeradas em frente às televisões.

Isso tudo porque o Rio de Janeiro será a sede das Olimpíadas de 2016.

Pena. Não me parece motivo de festa.

A cidade que festeja a "honra" é governada por Eduardo Paes, que tem implementado sua política neoliberal de desmanche da coisa pública (começando pela educação). O prefeito do "choque de ordem", o da continuidade da perseguição sistemática contra os trabalhadores informais. Que promete uma coisa e desfaz o que prometeu, como se vê no Nassif.

19 de jul. de 2009

O camelô, a Guarda e a arte que foge

5 comentários
O camelô vende alegria. Não é exagero dizer isso: o que é música, o que são doces, senão alegria? Filmes também são alegria. Não há arte -se for mesmo arte- que não traga alegria. Vender arte é por conseguinte vender alegria. E não importa se essa alegria não é "legalizada". Por acaso é possível regular a alegria? Arte é território isento de normas; uma vez nascida do espírito, voa livre, e é impossível retê-la, cerceá-la, onerá-la. A internet prova isso.

Enquanto o camelô vende alegria, o guarda cassa a alegria. Diz que faz isso por não ser "legal". O guarda é fascista: não quer alegria acessível, nas calçadas da cidade, barata. Três por dez. Não é senão o povo o beneficiado com isso. Não é senão o povo o consumidor dessa alegria. Mas o guarda não quer isso. E bota o camelô pra correr.

3 de fev. de 2009

A dança de Ogum

1 comentários

Esqueci de escrever isso. No final de dezembro, festa de Iemanjá, grande celebração da cultura brasileira na praia de Copacabana. Ao som de uma curimba, alguns meninos irão dançar representando os Orixás. O ogã cantarola um ponto. O primeiro menino entra solene, sério. Não se dá muito por ele, mas, quando os atabaques despertam, começa a dançar. Aí o mundo se transforma. Já não é um menino de 12 anos, e sim uma força da natureza, é o próprio Orixá que pisa, frenético, na areia de Copacabana. Ogum dança e dança, brandindo a espada, e tudo que há de guerreiro e de bélico no mundo vem num turbilhão à minha mente: Heitor, Aquiles e Ajax, hostes jônicas, dóricos bárbaros, expedições macedônicas, guerras púnicas, legiões romanas, Vercingetorix e Caio Júlio César, cruzados e jihad, tropas napoleônicas.

As forças atávicas da guerra dançam na areia com o Orixá, e ao som dos atabaques emergem espadas e escudos, lanças e gládios, as flechas de Rama, o carro de combate de Arjuna. Vejo o Exército Vermelho de Leon Trotsky, vejo as batalhas indígenas de Cavalo Doido e de Tupac Amaru, vejo Bolívar e Sucre. Vejo os cavaleiros da távola redonda e vejo também as brigadas internacionais na Espanha, e diante deles todos a efígie do marechal Zukhov.

Os atabaques param e o menino readquire a seriedade. Afasta-se do centro da arena de areia, que será ocupada por outro menino representando outro deus. Ogum já dançou, está saciado. Eu, a cabeça ainda girando, em silêncio, por ser tão fraco, peço perdão ao Orixá.

23 de set. de 2008

Versos de biblioteca

0 comentários
Enquanto esperamos os livros, vem um certo tédio. A ansiedade pelo estudo, de um lado, e a monotonia da espera, de outro. Daí, aproveitando o silêncio, é possível que a musa cante despretensiosamente:

Silêncio
Zumbido chiado ar-condicionado
Vento que entra
Mulata ao lado
Que desconcerta
O Aliomar Baleeiro
Que fica
De lado.

14 de set. de 2008

A cidade e o fim de semana

0 comentários
Sábado à noite
Saio pela porta e passo a chave. A rua está escura: o poste está queimado. Aquela semi-escuridão, pontilhada pelas luzes das casas e faróis que passam, dá à rua a aparência de um conto de fadas. A rua Paula Mattos, em Santa Tereza, esta noite tem um ar de vila do Senhor dos Anéis.

Domingo de manhã
Leio em determinado jornal (daqueles de direita, mas qual não é, meu Deus?) simpática crônica de um artista angolano sobre o bairro das Laranjeiras. Fala da Rua Alice, da General Glicério, da Rua das Laranjeiras...E só. Ora, qualquer crônica sobre Laranjeiras, que não cite o Fluminense Football Club...É defeituosa, falha, incompleta.

30 de out. de 2006

O guardador de carros

2 comentários
O cenário do final de noite era uma barraquinha de churrasquinho, alguns bancos de plástico e o carro do dono do negócio, entoando um sertanejo alto apesar do avançado da hora. À base de muita cerveja, já estávamos naquele estágio etílico onde a letargia nos domina preguiçosamente e, em silêncio, meditamos nos assuntos da vida como só um bêbado pode fazer.

Então ele chega, animado, dançando, cantando, mexendo com todo mundo. Parece um morador de rua, mas é apenas um guardador de carros do bairro aproveitando, naquele momento, um curto período de folga. Fala conosco. Estava alcoolizado, o que tornava suas falas quase sem sentido, tornando-lhe a princípio uma companhia incômoda, mas estávamos nós também tomados daquela ternura alcoólica, onde o mundo parece bom e os homens, todos irmãos- já tendo dito, a propósito, Baudelaire, que o homem bom que bebe se torna excelente. E observamos, assim, sem maiores complicações, as evoluções do novo companheiro.