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4 de jan. de 2011

Duas histórias de bar

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Havia muitos anos eu não o encontrava. Trabalhava na banca de jornais aos pés do edifício onde morei em Copacabana, e sempre o via subindo de bicicleta a ladeira onde ficava o prédio. Após tantos anos, lá estava ele- grata surpresa. Fiz questão de ir cumprimentá-lo: lembrava de mim, na verdade não era muito mais velho que eu. Palavras amistosas, alguns comentários sobre aquela época. Daí falamos (não sei porquê) em objetivos, perguntei qual era o dele. Respondeu-me com simplicidade, quase dando de ombros: "ficar vivo". Aquilo me tocou e, como mais não podia, deixei uma cerveja paga para ele.

Daquele bar, aliás, me lembro a monotonia. Desfavoravelmente situado, quase à entrada do túnel da Barata Ribeiro, tinha poucos frequentadores: passávamos o tempo olhando a rua vazia, enquanto as garrafas eram esvaziadas. "O resto é silêncio", diria Hamlet de Shakespeare, salvo dias de jogo, quando enchia, como aquele em que o Fluminense derrotou o São Caetano (não me lembro qual campeonato, mas acho que teve gol de Magno Alves) e tomei um porre de fogo paulista.

*

Outro bar, outras pessoas. Este outro sujeito nos foi apresentado por um conhecido em comum: também torcedor do Fluminense, morava em Nova Iguaçu. Excelente conversador e de boas maneiras, mas tinha um passado sombrio, que eu descobri depois. Logo no primeiro encontro, após horas de conversa e bebida em um show na orla de Botafogo, me disse que eu, doravante, seria um de seus melhores amigos. Terno como todo bêbado, agradeci e disse que era recíproco.

30 de out. de 2010

De prostituição, pais e filhos- e advocacia

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Chamar alguém de "prostituto" é muito sério. Tradicionalmente é um dos adjetivos mais degradantes, principalmente quando se refere às mulheres. A prostituição tem uma pecha social muito forte: no Nordeste é dito que o medo dos pais é o de que seja homossexual o filho e piranha a filha (o medo não é, portanto, de que sejam viciados, criminosos, hipócritas ou vis: e sim de que disponham do próprio corpo como bem quiserem, o que deveria ser um direito inalienável do ser humano). A prostituta está tão entranhada no inconsciente da cultura judaico-cristã, que tradições ocultistas a associam à Sofia ("sabedoria"), prostituta e santa, e lembremos também da discípula direta, Madalena. Penso eu que o tabu da prostituta tem raiz longínqua, no surgimento da sociedade de classes, quando a mulher, assim como o bem, tornou-se propriedade privada. Nesse sentido, a prostituta, que não é propriedade de ninguém, simbolicamente é uma revolucionária; mas é uma vítima, por outro lado, quando é prostituta por falta de condições objetivas que lhe permitissem optar por outros rumos de vida, ou quando essa mesma cultura judaico-cristã a maltrata, a espezinha, a violenta -em mais de um sentido- por essa opção (ou falta de).

Mas não é sobre prostituição que quero falar. O que eu ia dizendo é que acusar alguém de se prostituir é uma ofensa grave. Que dizer quando isso é falado do próprio filho? Pois isso foi dito em plena Vara de Família: ao se levantar ao término da audiência, o pai -sujeito asqueroso até na aparência- resmungou com seu advogado, alto o suficiente para que todos na sala ouvissem: "-Até quando vamos cafetinar o garoto?". Quem tem cafetão é prostituta. Ao ser condenado (provisoriamente) a pagar alimentos ao filho (meu cliente), maior de idade -mas ainda cursando faculdade- o pai se colocava como cafetão, e o rebento, por dedução lógica, como garoto de programa. Era uma afronta: que eu, como advogado, tomei para mim.

22 de out. de 2010

O advogado e o bombeiro

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Ele entra, sorridente, um sorriso carismático de gente simpática. Negro, alto e magro, bem magro. E começa a me contar o problema: faz parte das minhas matérias favoritas, concurso público, um dos assuntos clássicos para um juspublicista como eu. Bombeiro! Ele quer ser bombeiro, mas uma flagrante ilegalidade no edital impede isso. Penso cá comigo, enquanto ouço ele narrar o problema, que o Estado deveria ser obrigado a aceitar todos interessados em ser, não apenas bombeiros, mas médicos, professores, construtores, cientistas, jardineiros, carpinteiros, pedreiros- todos, todos que tenham algo a acrescentar, algo a somar, deveriam ser obrigatoriamente aceitos pelo Estado. Mas não é o caso: meu cliente quer ser bombeiro, mas um edital perverso impede isso.

O assunto é de fácil solução, penso comigo. Mas não digo isso a ele: é preciso valorizar a profissão. Faço umas ponderações, explico superficialmente os meandros jurídicos envolvidos, acerto os honorários -módicos, não sou careiro- e eis-me logo em seguida debruçado sobre a causa. Há urgência: a data pro concurso se aproxima. Quanto tempo, Dr. Joycemar, para obter a liminar no mandado de segurança? Oh, nem uma semana? Coisa corriqueira na Advocacia: às vezes 24 horas decidem tudo. Entrei com a ação. Apesar de sua flagrante ilegalidade, a Administração resistiu obstinadamente: até agravo de instrumento houve. Mas em vão, ganhei tudo. Até que o bom senso imperou (ou as ações começaram a pulular), e o próprio Estado republicou o edital, eliminando o requisito ilegal.

8 de out. de 2010

Umbanda

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Estamos no quarto. É penumbra, o que acrescenta carga dramática à cena. Conto a ela o encontro com a Entidade, e naturalmente estou emocionado. Não sei dizer até que ponto acredito; não sei dizer o tanto que, de toda cantiga e de toda vela, de todo atabaque e de toda defumação, era real ou não. Não sei dizer se aquilo que se desenrolou diante dos meus olhos era fato ou mistificado. Não é difícil ser enganado: mas como quer que seja a Entidade estava lá, na minha frente, e me olhava fixo.

O cambono -o nome dado aos ajudantes do terreiro- chamou meu número, e me dirigi ao congá. O primeiro contato com a espiritualidade, o primeiro contato com o lado de lá. Direto, cara a cara, ao contrário do Kardecismo. E o Kardecismo não era nada perto daquilo. Kardec, com os eruditos textos doutrinários e palestrantes suaves de fala difícil, pouco tinha a ver com os gemidos, os urros, os cânticos. As velas e as estátuas me tocavam muito mais o coração. Quem vem de Kardec pouco está preparado para isso, para o caldeirão místico que irradia, qual lâmpada, do congá. Aqui os médiuns giravam, literalmente giravam. E aquela senhora, tão frágil e alquebrada, com Ogum (Megê? Rompe-mato? Iara?) dentro dela era como alguém possuído. Podia derrubar qualquer homem naquela sala, tamanha força emanava, principalmente brandindo a espada-de-são-jorge que, ao contato com os "obsediados", murchava- impressionante. Vi isso.

27 de jun. de 2010

Observando (e um pouco de zen)

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Considero-me observador. É difícil esquecer um nome, um rosto. Cá no meu canto, enquanto aguardo – filas, guichês, ônibus – faço um rastreamento das coisas ao me redor. É um passatempo; tanta diversidade, tanta riqueza ao alcance de nosso olhos. Não é um cinema, mas pessoas reais, de carne e osso. E como isso é mais rico que o cinema, poucas pessoas se dão conta.

Por exemplo, estou no tribunal – não importa qual, nem o dia. O debate se desenrolava no plenário. Não uma sessão de julgamento, com todos os rigores solenes, mas sim juízes e advogados abordando temas em comum, um tipo de procedimento corriqueiro naquele tipo de Justiça. No fundo do plenário, oculta pela penumbra, lá estava ela. Sendo os cabelos e as roupas escuras, apenas o rosto alvo se destacava. Era bonita, eu pude notar, não a beleza gritante da juventude, mas madura, menos pela idade e mais pela postura. Juíza... Todo o modus operandi de uma austera autoridade. Foi enquanto transcorria o debate no plenário que a descobri, lá, parada, em pose de Helena Blavatsky. Pois era teosófica sua pose, sua postura, seu olhar. Teosófico, se é que podemos definir assim uma pose, uma postura, um olhar, mas nenhum outro termo seria mais adequado. E o olhar, eu percebia bem, estava em mim. Talvez não em mim, propriamente, mas no espaço físico etéreo-astral onde eu me situava, aqueles olhos de Blavatsky perscrutando o que os nossos, de leigos, não conseguem. Talvez eu não estivesse ali, pra ela. Olhava através de mim. Seja como for, precisei quebrar o encanto para prestar atenção no debate que se desenrolava.

26 de mai. de 2010

Falando de horas

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1. O melhor horário para mim -o mais misterioso, digamos assim- são as 18:00.  É uma espécie de interlúdio entre duas fases, onde noite e dia se misturam, se mesclam, copulam. Encerra-se o ciclo: o dia acaba, e adentramos o reino da noite. Estamos no limiar, daqui pra frente é a noite e seu domínio.  É a hora da Ave-maria, é a hora, não sei por quê, em que me vêm à mente lembranças de praças arborizadas.

2. Ao meio-dia, o sol parece estar zangado. Despeja aqui embaixo sua fúria, condensada em raios e mais raios. Impressionante: arde. Queima a pele. Daí pensamos em todas as notícias cataclísmicas que recebemos da mídia, sobre fim do mundo e efeito estufa. Derretimento dos pólos. Quando era menino, o ano 2000 seria o final dos tempos. Falávamos brincando, mas havia um pouquinho de medo da profecia mesmo no espírito infantil. Já se passaram 10 anos de 2000, e cá ainda estamos. O mundo acaba diariamente para quem morre, é simples assim. Por que tanta coisa e tanto Nostradamus? Mas, é meio-dia e o sol é apocalíptico.

O que motiva essa fúria do sol? E sofremos nós todos aqui embaixo, eu mais que todos, maldito quem disse que advogado nos trópicos precisa de paletó.

19 de mai. de 2010

Todos os sentidos

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1. O que era uma dor forte se transformou num leve incômodo. Correr de jeito nenhum, mas já posso andar sem capengar. Tem algo de ridículo em mancar por aí, mas, pior que isso, é ver como os verdadeiros deficientes sofrem nesse mundo egoísta: degraus altos, escadas inacessíveis – realmente as coisas não são projetadas para os idosos, para os incapacitados. Bem, não estou mancando mais, o corpo se regenera (como tudo vivo) e a vida segue seu ritmo.

Tentei voltar ao muay thai, mas não deu. O joelho (que já era ruim) aguentou só quatro treinos.  Parei mesmo no kruang vermelho-ponta-azul (o kruang é uma faixa amarrada ao braço, um amuleto, entre os lutadores tailandeses, mas que no ocidente é usado como crítério de graduação). O espírito – já tem postagem sobre isso – é invencível, mas a matéria é fraca. Muay thai pra mim, definitivamente, é passado.

2. O escuro tem algo de mágico. Estamos de olhos bem abertos, mas nada vem- só o negrume, como um vazio, como um nada que, na verdade, é repleto de mistério. Afinal, não vemos, mas as coisas estão lá. Elas apenas não aparecem para nós, mas estão lá. Quem disse que as coisas precisam de nós? O escuro tem algo de cósmico. Caminhar às escuras é a sensação que, acredito, tem o meteoro, quando atravessa o breu universal.

14 de set. de 2008

A cidade e o fim de semana

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Sábado à noite
Saio pela porta e passo a chave. A rua está escura: o poste está queimado. Aquela semi-escuridão, pontilhada pelas luzes das casas e faróis que passam, dá à rua a aparência de um conto de fadas. A rua Paula Mattos, em Santa Tereza, esta noite tem um ar de vila do Senhor dos Anéis.

Domingo de manhã
Leio em determinado jornal (daqueles de direita, mas qual não é, meu Deus?) simpática crônica de um artista angolano sobre o bairro das Laranjeiras. Fala da Rua Alice, da General Glicério, da Rua das Laranjeiras...E só. Ora, qualquer crônica sobre Laranjeiras, que não cite o Fluminense Football Club...É defeituosa, falha, incompleta.

30 de out. de 2006

O guardador de carros

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O cenário do final de noite era uma barraquinha de churrasquinho, alguns bancos de plástico e o carro do dono do negócio, entoando um sertanejo alto apesar do avançado da hora. À base de muita cerveja, já estávamos naquele estágio etílico onde a letargia nos domina preguiçosamente e, em silêncio, meditamos nos assuntos da vida como só um bêbado pode fazer.

Então ele chega, animado, dançando, cantando, mexendo com todo mundo. Parece um morador de rua, mas é apenas um guardador de carros do bairro aproveitando, naquele momento, um curto período de folga. Fala conosco. Estava alcoolizado, o que tornava suas falas quase sem sentido, tornando-lhe a princípio uma companhia incômoda, mas estávamos nós também tomados daquela ternura alcoólica, onde o mundo parece bom e os homens, todos irmãos- já tendo dito, a propósito, Baudelaire, que o homem bom que bebe se torna excelente. E observamos, assim, sem maiores complicações, as evoluções do novo companheiro.