8 de out de 2010

Umbanda

Estamos no quarto. É penumbra, o que acrescenta carga dramática à cena. Conto a ela o encontro com a Entidade, e naturalmente estou emocionado. Não sei dizer até que ponto acredito; não sei dizer o tanto que, de toda cantiga e de toda vela, de todo atabaque e de toda defumação, era real ou não. Não sei dizer se aquilo que se desenrolou diante dos meus olhos era fato ou mistificado. Não é difícil ser enganado: mas como quer que seja a Entidade estava lá, na minha frente, e me olhava fixo.

O cambono -o nome dado aos ajudantes do terreiro- chamou meu número, e me dirigi ao congá. O primeiro contato com a espiritualidade, o primeiro contato com o lado de lá. Direto, cara a cara, ao contrário do Kardecismo. E o Kardecismo não era nada perto daquilo. Kardec, com os eruditos textos doutrinários e palestrantes suaves de fala difícil, pouco tinha a ver com os gemidos, os urros, os cânticos. As velas e as estátuas me tocavam muito mais o coração. Quem vem de Kardec pouco está preparado para isso, para o caldeirão místico que irradia, qual lâmpada, do congá. Aqui os médiuns giravam, literalmente giravam. E aquela senhora, tão frágil e alquebrada, com Ogum (Megê? Rompe-mato? Iara?) dentro dela era como alguém possuído. Podia derrubar qualquer homem naquela sala, tamanha força emanava, principalmente brandindo a espada-de-são-jorge que, ao contato com os "obsediados", murchava- impressionante. Vi isso.

E agora estou aqui, diante do homem grisalho. Robusto. Olhos severos, semi-cerrados, respiração difícil. Havia muita curiosidade -agnóstico que sou- mas havia deferência e respeito ao culto. Abaixei a cabeça, e me submeti à limpeza espiritual que me era ministrada. O momento é de entrega: a Entidade manipulava meus centros energéticos, os pontos sutis de minha alma, como um cirurgião do invisível. Seria imaginação? Não importa, o momento era de entrega.

E a Entidade me perguntou o problema. E eu disse (é pessoal: não irei contar aqui no blog). E a Entidade escutou gravemente. Daí invocou, fazendo sinais sobre mim, Xangô e todas as forças da Justiça, o que, para um advogado como eu, teve efeitos perturbadores. Então me mandou "bater cabeça" no congá. Neófito, com os nervos aflorados pela experiência, e ainda por cima tímido, não sabia como proceder. A moça me ajudou. Também cambono, era loira e bonita, e vestia branco como os demais trabalhadores do terreiro. Fiz como indicado e me curvei, humilde, diante do enorme altar, um mar de velas, estátuas e flores. Toquei com a testa o tecido branco. Daí percebi: aquilo não era um altar de madeira coberto por pano branco; era energia condensada, era fogo quântico que entrava pela testa e me consumia.

Sentindo-me meia tonelada mais leve, retornei à Entidade, que aguardava impassível. Fez os passes finais. Então perguntei: "-Qual seu nome?", e veio sem pestanejar, altivo: "-Caboclo Tupinambá!". Uma última saudação e fui liberado, saindo de frente, porque é desrespeito dar as costas ao congá.

Contei isso tudo a ela. Ouviu com atenção meu relato, o meu relato algo emocionado, algo assustado, em voz baixa para não acordar as outras pessoas da casa que já dormiam. Não sei se ela acreditou: eu próprio não tenho certeza.

Isso já faz muitos anos. Desde então estive em vários outros terreiros- mas ainda não tenho certeza, confesso ainda não ter certeza.

Mas ainda agora, cabeça no travesseiro, há algo ao fundo, ecoando, algo como

Estava na beira do rio, sem poder atravessar
Chamei pelo Caboclo, Caboclo Tupinambá

Algo assim.

*

Kardec diz que a fé verdadeira deve passar pelo crivo da razão, e sair incólume. Diferentemente do fundamentalismo, portanto, onde a abordagem religiosa se dá no nível antirracional, "é porque é, e ponto final". Nesse sentido, a Umbanda não tem o arcabouço doutrinário do Kardecismo -que é mais antigo, europeu e que fala ao erudito, ao contrário da Umbanda, mais nova (apenas 100 aninhos), brasileira e que fala a linguagem popular- mas também deu nascimento a uma enormidade de estudos e pesquisas. 

4 comentários:

  1. Cada um sabe da própria experiência, não é? De todo o modo, acho que o bom senso é fundamental, a razão deve ser levada em conta sim - e para tudo, todas as crenças.
    Seu texto me fez lembrar da minha infância (rs). Minha avó paterna teve um centro de umbanda durante o tempo rm que viveu, e eu me lembro dos dias em que tinha atividade. Foi meu primeiro contato com o esse universo espirtual/espiritualista. Particularmente, nunca me senti muito a vontade por lá, e mesmo depois e recentemente até. Acabei me irradiando pro Espiritismo mesmo.

    Beijos!

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  2. Para mim o mais importante é a sensibilidade, trata-se de um texto sensível e que dá luz a rica cultura afro-brasileira em um mundo de fundamentalistas cristão isso é importante. Parabens

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  3. Acredito muito na afinidade. Por uma série de fatores -pessoais, sociais, psicológicos etc.- sentimos inclinação maior por esta ou aquela concepção religiosa.

    Assim, dentro do fenômeno religioso, alguns vão para o Cristianismo, outros pro Budismo etc. Como você diz, Bruna, a experiência é própria de cada um. O principal é se sentir bem dentro da opção escolhida.

    Posso falar isso tranquilamente, justamente por não possuir, eu mesmo, crença específica. Sou imparcial =)

    O fundamentalismo cristão, Leando, é inclusive um dos maiores inimigos da cultura afro. Entendo que há racismo por trás, e por trás do racismo a questão econômico/ material. Mas isso já dá outro post, rs.

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  4. Acho mesmo q o problema está no fundamentalismos cristão. Não tenho uma religião, mas considero-me católica mesmo sem conseguir acreditar no q é dito sobre muita coisa. Talvez por isso esteja fazendo tanto sucesso os padres escritores e cantores. Q funcionam como os livros d auto-ajuda. Nesses casos só não "melhoram" os q não assumem as rédeas d sua vida.
    Quando criança tb tive contato com entidades. Tenho vontade d saber como elas m veriam hoje. rs
    Bjs, ótimo fim d semana.

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