15 de out de 2010

Maiakovsky e os trolls

Há um tipo de artista -os polêmicos, os instigantes, os desafiadores- que atrai, como um ímã, as mais diversas espécies de pessoas, pro bem e pro mal. E justamente por serem polêmicos, instigantes, desafiadores. É natural: os chatos e os medíocres (i.e., medianos) não costumam ter muita audiência, quando muito tão chata quanto eles. O polêmico tem ibope mais alto, o que não quer dizer necessariamente que tenha mais qualidade. Muitas vezes a (falsa) polêmica é exatamente a arma do medíocre para aparecer, para ganhar a mídia e o mercado. Quem é bom -na área que for- não precisa disso. Aparece naturalmente, a polêmica que desperta, as reações -contra e a favor- vêm naturalmente. Pendurar melancia no pescoço é para os fracos.

Quando desperta a atenção (com qualidade, portanto), o indivíduo traz junto...a inveja. Vem no pacote. O medíocre, o que precisa da melancia no pescoço, vai justamente invejar quem não necessita de nada disso: e dá-lhe perseguição, críticas destrutivas, ou, como se fala aqui na web, trollagem. Isto é, a saudável prática de aporrinhar sistematicamente alguém.

Não me lembro de um artista desses, polêmico no bom sentido, nos dias de hoje (como falei no tópico sobre os Smiths, pouca coisa me atrai atualmente, no campo das artes, o que pode ser é claro fruto da minha própria ignorância). Mas conheço antigos: Oscar Wilde era um desses, causando frisson com seus epigramas. Outro, é o meu preferido, Vladimir Vladimirovitch Maiakovsky, orgulho da poesia revolucionária.

Maiakovsky optou por ser um provocador. O movimento futurista russo, do qual foi expoente, era iconoclástico. Chutava as velhas formas. Maiakovsky, na época, ainda estudante, causava escândalo se apresentando com uma vistosa blusa amarela, que virou até motivo de poema:

Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.


Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"


Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!


Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

(Sim, é "blusa cor de gema", mas porque é a tradução de Augusto de Campos. Na tradução de Carrera Guerra, é "blusa amarela" mesmo).

Imaginem essa petulância no início do séc. XX, em plena Rússia czarista. A iconoclastia e o chute no rabo dos velhos continuaram, desta vez ao longo da Revolução. Porque a Revolução é ela própria um escândalo, um choque, de modo que naturalmente os futuristas russos a encamparam.

Pergunta-se Maiakovsky, e ele próprio responde:

Aceitar ou não aceitar? Uma tal pergunta não existia para mim nem para os demais futuristas moscovitas. A minha revolução.

A Revolução dele, Maiakovsky, deles, futuristas. De quem quer que seja progressista, desafiador, ousado.

De quem quer que atraia trolls.

A "trollagem", falei acima, tem como um dos motivos a inveja. Mas tudo isso que falei -ser desafiador etc. etc.- traz "trollagem", de uma forma ou de outra. E como os trolls cercaram Vladimir Vladimirovitch! Sua própria postura como artista favorecia isso. Suas declamações públicas eram concorridas: misto de teatro e sarau, Maiakovsky berrava, interpretava, urrava seus poemas com sua voz cavernosa. O público ia ao delírio. Interagia, vaiava, também urrava. Devia ser fantástico. Em sua biografia escrita por Aleksandr Mikhailov, que citei aqui, fala-se em um estudante (não me lembro o nome) que sistematicamente comparecia às apresentações. Sempre se portava de forma crítica e hostil: um troll, em outras palavras. Vladimir Vladimirovitch, espirituoso, antes de começar as recitações perguntava se o sujeito estava presente. Quando ouvia o "aqui!", dizia, "então podemos começar". Jeito certo de lidar com trolls, não levá-los a sério.

Mas a nota trágica disso tudo é que, por trás de toda irreverência, de toda postura espirituosa, de todo desafio, há um ser humano- e Maiakovsky, absorvendo golpe por golpe...crítica após crítica...Uma hora a corda arrebenta. Quem é de ferro, afinal de contas? Não se pode estar em guerra vinte e quatro horas por dia. O revolucionário que era Maiakovsky acabou vencido, como a própria Revolução também, conforme assomava o fantasma do stalinismo. A crítica sectária (da turma do Proletcult, "remendões do fraque velho de Pushkin"), a censura política que já começava a crescer, a mediocridade. Mais um fracasso amoroso, um problema de saúde e voilà!, eis o balaço no peito.

Vladimir Vladimirovitch, que transformou em poesia o gesto de Iesiênin, esse outro trágico, fez exatamente igual. Privando o mundo da revolução em versos. Não o condeno. Um gesto desses, o mais extremo que alguém pode tomar, é algo estritamente pessoal.

O que é triste é ver o quanto a mediocridade, a inveja, etc. etc., estão por trás de tantas perdas. O troll, de certo modo, é um assassino figurado.

Um comentário:

  1. Ótimo texto, foi uma leitura esclarecedora para mim! Só me arrependo de não ter lido antes. Concordo contigo, foi perfeito ao concluir: - “é um assassino”! Não tenha dúvida.

    Psicopatas não são apenas os que matam o físico, têm outras maneiras de colocarem em prática suas crueldades, arruinando com a vida de uma pessoa, gerando nela desgaste físico, emocional e/ou psicológico... Infelizmente eles sempre existiram e vão continuar existindo, estão cada vez mais presentes, e nós aqui, sujeitos a eles.

    Grande abraço,
    Foi um prazer ler-te!

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