19 de mar de 2010

O mais humano dos homens

O ser humano historicamente teve necessidade de guias. Digo teve, porque acredito que chegará um momento em que, com a emancipação humana, essa fase se torne passado. Mas teve, tem tido, necessidade, de modo que basta alguém melhor dotado (de carisma, de inteligência, de dinheiro), e ei-nos fervorosos seguidores, rebanho fiel repetindo "amém". Pior ainda quando os "ídolos" são os fúteis, os do esporte, da música, da novela- fúteis não por causa do esporte ou da arte em si, que têm seu papel no desenvolvimento humano, mas sim pelo caráter que tais manifestações adotam num sistema alienante como o capitalista.

São ridículas as cenas de adolescentes se descabelando pelo galãzinho, mas não deixam de ser um rito de passagem. Complicado é quando homens adultos, supostamente guiados por um método científico como é o marxismo, cedem à essa tentação. Não é raro encontrarmos "marxistas" (com aspas, naturalmente) dóceis aos "guias". Mas esses são os stalinistas, os fãs do "Guia Genial dos Povos", do "Grande Timoneiro"- o "Marechalíssimo" (sic) Josef Stálin.

Como conciliar o stalinismo com a emancipação humana? O stalinismo, de editorais do Pravda como este, nos anos 50:

"Se você estiver com algum problema, se encontrar alguma dificuldade no trabalho, se tiver alguma dúvida quanto ao que é capaz de fazer, pense nele, em Stálin, e se sentirá novamente forte e confiante. Se se sentir cansado quando ainda há trabalho a ser feito, pense nele, em Stálin, e encontrará novas forças. Se você estiver em dúvida quanto a melhor decisão a tomar, pense nele, em Stálin, e verá que é fácil decidir...'Stálin diz'; isso significa que é assim que o povo pensa. 'O povo diz'; isso significa que é assim que Stálin pensa"

Isso não é marxismo. É religião. É o sintoma de uma doença, o da degeneração burocrática da revolução.

E Lênin?

Lênin não tem nada a ver com isso.

O Lênin que admiramos (e não "seguimos", como os rebanhos acima) é um líder tremendamente humano. Impossível não se identificar com sua figura, no exílio, ou na clandestinidade, primeiro perseguido pelo czarismo e depois pelo kerenkysmo, ensinando, expondo sua linha, não raro desafiando um Comitê Central hesitante. Às vezes exasperado, Ilitch Lênin se impacienta. É preciso mostrar, apontar a linha, é preciso ter os olhos bem abertos por sobre toda a situação, não só russa como europeia; e isso em plena Guerra Mundial, e isso sem poder se revelar, sem poder se mostrar. Nessa ânsia, é possível que haja equívocos, talvez erros de avaliação. Mas nem os gênios estão livres de erros. E Lênin era humano, um gênio, mas humano, daí dizer Trotsky, aspas no original:

"Lênin não era nenhum autômato de decisões infalíveis. Era 'somente' um homem de gênio, e nada de humano era estranho a ele, incluindo a capacidade de enganar-se".

E é justamente por ser humano, demasiado humano, que admiramos Lênin. Esse traço, o da humanidade de Lênin (em oposição aos mitos de "Guias Geniais" criados pelo stalinismo) está presente em outro grande revolucionário, Maiakovsky, no seu lindo poema "Vladimir Ilitch Lênin" (tradução de Carrera Guerra), em homenagem a sua morte:

"Se sobre sua cabeça formarem um auréola
temo que ocultem
a autêntica, a humana, a sábia,
a imensa fronte de Lênin.
Receio que as procissões, os mausoléus,
a admiração, seus estatutos e regras,
possam afogar numa doce unção
a simplicidade de Lênin.

(...)

Sera possível 
que de Lênin também se fale
como de um 'chefe pela graça de Deus'?
Tivesse ele sido divino ou como um rei
e, todo furor, sem me poder conter,
eu, de frente, interceptaria o cortejo
contra a multidão dos admiradores

(...)

Humano, carinhoso para os camaradas,
para o inimigo, a dureza do ferro. 
Ele tinha, como nós as temos, suas fraquezas.
Curara-se das enfermidades, sem se deitar.
Assim, a mim o bilhar me exercita o olho.
A ele, era o xadrez, jogo útil aos chefes.
E por homens substituindo os peões de ontem,
ergueu a ditadura operária
sobre as prisões das torres do capital.
Eu daria minha vida,
embevecendo de admiração,
por um só suspiro de seu peito. E não só eu!
Por acaso sou eu superior aos outros?

(...)

Levam bandeiras
e parece que de novo
a Rússia voltou a ser nômade.
A sala das colunas estremece trespassada.
Por quê? Para quê?
O telégrafo já está rouco
de tanto grito enlutado.
Lágrimas de neve caem dos olhos avermelhados.
Que fez ele? Quem é ele? E donde vem
este homem, o mais humano dos homens?". 

Precisamente homens, demasiadamente humanos, são necessários no mundo. São eles que impulsionam a roda da História, rumo ao futuro. Já os "Guias Geniais" do stalinismo, que são na verdade puro reacionarismo, pertencem ao passado ou, usando a expressão de Trotsky, à lata de lixo da História.

Um comentário:

  1. Com certeza Lenin foi um revolucionário e um brilhante teorico.É um absurdo culpar Lenin pelo que aconteceu na URSS pós anos 30.

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