26 de nov de 2010

Ainda o dogma (a propósito de hereges)

Tenho falado muito do Orkut, em particular. Apesar das inúmeras críticas que essa ferramenta vem recebendo, ainda é, na minha opinião, a melhor rede social. Tem o Facebook, e até concordo que seja superior em muitos aspectos. Mas nisso de fomentar discussões, de juntar pessoas com interesses comuns, de disseminar informação, eu acho o Orkut melhor. Meu perfil tem quase seis anos, e a quantidade de debates -sobre os mais diversos assuntos- e pessoas diferentes que conheci é inimaginável. Sempre surge alguma coisa nova, alguma coisa interessante. Como esta fala do padre Bede Griffiths, que recebi por scrap:

Além de ser cristão, eu preciso ser um hindu, um budista, jainista, zoroastrista, sikh, muçulmano e judeu. Só assim poderei conhecer a Verdade e encontrar o ponto de reconciliação de todas as religiões... E esta revolução tem que se processar na mente do homem ocidental.

Difícil expressar a alegria que eu sinto, ao tomar conhecimento de falas como essa. Porque a minha posição -eclética, dialética, aberta- é justamente assim: a de enxergar para além da religião.

A fala do padre católico tocado pelo Hinduísmo Griffiths se assemelha -através dos séculos- com a do sábio sufi do séc. XIII Muhammad Ibn Arabi, "al-Shaykh al-Akbar", "O Mestre Supremo", uma pérola de espiritualidade e tolerância:

O meu coração está aberto a todas as formas:
É uma pastagem para as gazelas,
E um claustro para os monges cristãos,
Um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As Tábuas da Tora,
E o livro do Alcorão.
Professo a religião do amor,
E em qualquer direcção que avancem os seus camelos;
A religião do Amor
Será a minha religião e a minha fé.

É claro que o fundamentalista não pode aceitar isso. Assim como o islâmico "linha-dura" vai querer interpretar a seu modo a fala de Ibn Arabi, assassinando seu aspecto ecumênico, padre Griffiths é chamado de herege nesse mesmo Orkut. Sim, "herege"- Torquemada não diria melhor.

Herege!

Não é melhor a heresia ao dogma?

Os fundamentalistas acreditam que o espírito humano pode estar adstrito a um conjunto de cânones. Por serem limitados, binários, pensam que os homens todos também devem ser assim. Não percebem que a religião nada mais é que fenômeno de superestrutura, cultural -e portanto suscetível às condições materiais vigentes, influenciadas pela época e local- de modo que não se pode falar em religião "correta", "verdadeira", antes, todas são, todas podem ser "corretas" e "verdadeiras", se prestando ao seu papel de superação e melhora do ser humano.

(Assim como as demais produções do espírito, a literatura, a filosofia etc., devem se prestar a esse papel. Reparem que, nesta ótica, os postulados religiosos -existência ou não de Deus, diabos, anjos e demônios, reencarnação e espíritos etc.- são indiferentes. Isso não quer dizer que precisem ser negados, ou aceitos. E sim que o importante é que, nesta vida, a religião sirva de fermento, e não de ópio).

Mas o fundamentalista pensa diferente. A religião verdadeira é a dele; aos demais, é garantido um lugar cativo no inferno. E como é irrazoável esse "lugar", o inferno! Qualquer pessoa sã sente arrepios de horror, ao se imaginar torturando alguém com ferro em brasa, por cinco minutos que sejam. Que dizer de uma tortura E-T-E-R-N-A, à base de fogo e lava? Sem descanso, sem pausa, sem perdão. Gritos não farão parar essa tortura eterna. Nada irá parar.

Cruel? Mas esse lugar existe. É o inferno dos fundamentalistas. E o anfitrião, ah!, é o Todo-poderoso em pessoa. O "Clemente", o "Misericordioso" da recitação islâmica; exatamente ele é o arquiteto desse horror.

Não é incongruente? Não há nada mais antirreligioso que a própria religião. Daí o homem de bom senso acaba por optar por deus nenhum a um Jeová bíblico possessivo e vingativo cuspindo bolas de fogo na cabeça dos pecadores. É por isso que eu (sem que seja propriamente um homem de bom senso) me sinto bem por não ter religião alguma.

O que não quer dizer que eu não busque a religiosidade.

Pois para mim há uma cisão clara: enquanto a religião é o território do dogma e das ameaças de inferno, a religiosidade é o campo do espírito. Pode-se chegar à religiosidade através da religião, mas não necessariamente; e de certo modo, podemos dizer que a religião tem justamente afastado, ao longo dos séculos, as pessoas da religiosidade.

A religiosidade é para além da religião. É aquele lugar mil vezes sagrado onde o padre Griffiths encontra Ibn Arabi, a eles se juntando Jalal ad-Din Rumi, que diz em seu "Masnavi":

Aquele a quem o santuário da verdadeira prece é revelado
Considera vergonhoso voltar à mera religião formal.

Charles Bukowski diz, no "Notes of a dirty old man", que Karl Marx é "merda seca demais". Está errado, redondamente errado. Karl Marx é alimento para o espírito. Pode ser "merda", e "seca" ainda por cima, mas apenas através dos óculos binários dos fundamentalistas. Parece-me claro que o marxismo fez, na luta da Humanidade por uma sociedade fraterna e libertária, muito mais que muitas doutrinas e dogmas religiosos. Assim como Marx, Osho também chama as religiões de ópio. Diz Osho:

Não são só as drogas e o álcool- a chamada religião também tem servido como um ópio. Ela dopa as pessoas. E é claro que todas as religiões são contra as drogas, afinal elas atuam no mesmo mercado; lutam contra a concorrência. Se as pessoas usam ópio, elas podem não ser religiosas. Já encontraram o ópio, para que se incomodar com a religião? E o ópio é mais barato, exige menos envolvimento.

Esse tipo de crítica parece cruel. Se mal entendida pode até mesmo dar azo a outra espécie de fundamentalismo, o da antirreligiosidade (aqui, religião e religiosidade como sinônimos: o ateu fundamentalista não faz a distinção), que é o mesmo pensamento binário, mas do lado oposto. A crítica da religião deve ser dialética, e jamais binária ou irracional. O "ópio do povo" de Marx deve ser interpretado em seu contexto, conforme aparece na "Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel".

É que insisto: o problema não é o espírito religioso, e sim quando é visto pela lente binária do fundamentalismo. Está em 2 Coríntios 3: 6: a letra mata, o espírito vivifica. Por "letra" entendo justamente a lei, o manual, a autoridade, o "é porque é e ponto final". O dogma, enfim.

O dogma é o assassino do espírito.

4 comentários:

  1. Muito bom seu texto!
    Com relação às redes virtuais, prefiro o Facebook, mas uma coisa não substitui o orkut: as comunidades. A forma como as comunidades são organizadas, e seus fóruns, são fantásticas e permitem o franco debate. E viva a dialética.

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  2. Um texto muito rico, muito bem escrito.

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  3. "E vamo bota pra quebrar, parceiro!!!" ;)

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