14 de mai de 2010

Algumas opiniões filosóficas

O problema do dualismo (ou binarismo) é que enxerga apenas A e B, preto e branco. A dialética, ao contrário, reconhece o preto e o branco como diferentes, mas sabe que se tocam -os inúmeros tons de cinza- e que, ainda, o preto às vezes se faz de branco e vice-versa.

O stalinismo é binário. Dentro de sua lógica, se a direita critica Stálin, e Trotsky também critica, então Trotsky é direita.  O "então" é o coração dessa falácia, a raiz do sofisma. Daí Leandro Konder falar em "deformação antidialética dos tempos de Stálin", deformação esta que ainda faz vítimas. Não se pode falar em deformações antidialéticas dentro do marxismo, que é, nas palavras de Trotsky, a teoria do movimento e não da estagnação. Sendo a teoria do movimento, o marxismo é dialético, e não binário. Daí concluímos que stalinismo e marxismo são coisas antagônicas.

O que é dito acima deve ser tomado com cuidado. A dialética não pode dar margem a interpretações oportunistas, com tudo sendo justificado em prol dessa ductibilidade. Em que pese o preto poder agir como branco, preto e branco são coisas distintas. Negar essa distinção é falsificar a dialética.

Daí, os binários ficam confusos quando vêem o vilão agindo como heroi. Não compreendem os tons de cinza. Acham que, por ter tido um ato de heroi, o vilão se tornou heroi, e portanto o vilão deve ser apoiado como heroi fosse. O correto, ao contrário, é reconhecer o ato heroico, sem deixar de ter em mente que aquele ato, heroico ou não, veio de um vilão. Portanto a necessidade de cuidado, de atenção.

Isso se aplica, por exemplo, no lulismo, que galvanizou parte da esquerda brasileira (até onde possa ser chamada de esquerda). Por, pontualmente, o lulismo se diferenciar do demo/tucanato, essa esquerda binária conclui que Lula é diferente de Serra, portanto Lula deve ser apoiado. Não percebem que o preto tem inúmeras variações (Van Gogh, em suas cartas a Théo, fala em 27 tipos diferentes de preto), sem deixar de ser preto.

Uma salpicada de branco, dentro do preto, não converte o preto em branco.

*

Este post é dedicado a Heráclito de Éfeso (540 a.C.- 470 a.C.), Heráclito, o Obscuro:

"Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vem e vai".

Tal é a dialética. Tudo flui (grego: panta rei), como um rio. Movimento e não estagnação.

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