21 de abr de 2010

A casa dividida (ou o partido de tendências)

Está escrito, em algum lugar do Novo Testamento, que uma casa dividida não pode subsistir. É quando acusam Jesus de expulsar demônios em nome do próprio Cão. Jesus retruca, logicamente: como poderia eu ser um demônio e ao mesmo tempo expulsar meus irmãos? Não faria sentido. Seria uma casa dividida, a dos demônios. Uns contra os outros. Dessa forma, se enfraquecem, e a casa cai. E isso naturalmente vale para tudo na vida: nenhum organismo, nenhuma organização, nenhuma família pode viver eternamente em pé-de-guerra. Isso necessariamente acabará mal, cedo ou tarde. E entre mortos e feridos salve-se quem puder.

A metáfora bíblica é pertinente para analisarmos um tipo peculiar de partido político, que age em regra  exatamente como facções de demônios brigando entre si. Refiro-me ao famigerado formato de "partido de tendências", do qual é (ou era, com a debandada dos dissidentes) exemplo o PT, no Brasil. Outro exemplo temos no PSOL, partido que, justamente composto de tendências saídas do PT, veio para o campo da esquerda quando aquele já se mostrava irremediavelmente degenerado. Ocorre que o PSOL também caminha, passos largos, para a degeneração.

O partido de tendências -as do PSOL ultrapassam o número de 10- comporta-se justamente como uma casa dividida. Cada tendência é, ela própria, um partido em miniatura, com seus objetivos, suas idiossincrasias, modos de pensar e agir- e geralmente antagônicos em relação às demais tendências. Exatamente como a casa do Capeta dividida, os demôniozinhos brigando entre si.

O exemplo mais recente do que tenho falado foi a disputa entre os três pré-candidatos do PSOL à disputa presidencial de 2010, Martiniano, Babá e Plínio de Arruda Sampaio. Uma disputa constrangedora, com cenas do que há de pior na politicagem burguesa, que ensejou documentos como este:

A coordenação da pré-candidatura de Martiniano Cavalcante divulgou, nesta terça-feira dia 23 de março, nota à militância do partido informando que este pré-candidato teria saído “vitorioso das plenárias municipais”, projetando um suposto resultado.

Diante deste fato, ou melhor, deste factóide, esclarecemos aos militantes do PSOL e aos apoiadores das pré-candidaturas de Plínio Arruda Sampaio e João Batista Babá que estas informações divulgadas pelo comitê de campanha de Martiniano Cavalcante não são verídicas, não refletem a realidade do partido e muito menos as informações que temos recebido de todos os estados do país sobre o processo de eleição de delegados nos municípios. Por este motivo, tal “projeção” não passa de uma tentativa de confundir a militância de nosso partido e prejudicar o bom andamento da III Conferência Eleitoral do PSOL.
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Os coordenadores da campanha de Martiniano Cavalcante sabem que ainda não está concluído o processo de centralização das informações pela Secretaria Geral nem pela Executiva Nacional do partido. Também tem plena consciência de que não está concluído o processo de julgamento dos recursos, enviados a esta instância nacional, e que se reunirá neste dia 24 de março para avaliá-los e julgá-los, fazendo cumprir o regimento da III Conferência Eleitoral do PSOL. Tentar ludibriar a militância de nosso partido, anunciando vitória antecipada em uma disputa que ainda não se encerrou, além de ser um desrespeito com a democracia do processo que está em curso, parece ser uma tentativa de criar um artifício para o não reconhecimento do resultado soberano que será tomado pela III Conferência Eleitoral do partido. O que seria um método deplorável e que em hipótese alguma a militância de nosso partido poderá tolerar. 
É dever de todos os diretórios estaduais informarem imediatamente os números oficiais dos municípios que realizaram plenárias para elegerem os delegados que participação da etapa estadual da conferência eleitoral, com as devidas atas e documentação previstos no regimento da III Conferência Nacional. Esta é a melhor maneira de garantir a transparência do processo e a informação a qual a militância nacional do PSOL tem direito.
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Além disso, é fundamental a participação de cada um dos delegados e delegadas eleitos nas etapas estaduais da conferência eleitoral, para que esta tentativa da coordenação de campanha de Martiniano Cavalcante, de desmobilizar nossa militância com falsas projeções, seja derrota. Neste sentido queremos fazer um chamado a todos os apoiadores das pré-candidaturas de Plínio Arruda Sampaio e João Batista Babá a participarem ativamente dos processos estaduais, para que possamos confirmar a vitória, na III Conferência Eleitoral do PSOL, de uma visão de partido democrático e socialista.
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Coordenação Nacional da pré-candidatura Plínio de Arruda Sampaio
Coordenação Nacional da pré-candidatura de João batista Babá
O que temos é isso: uma luta intestina, visceral, não contra outro partido rival, mas sim contra correntes dentro de seu próprio partido. Como acreditar, de boa-fé, que esse tipo de formato partidário pode funcionar?

De minha parte, parece evidente que a melhor forma de organização partidária até hoje é a leninista, isto é, o partido de quadros fundado no centralismo democrático. A História já mostrou o potencial e o alcance do leninismo (ou bolchevismo), daí a fala acertada de Trotsky, ao dizer que "o marxismo encontrou sua expressão histórica no bolchevismo". 

Boa sorte, portanto, aos companheiros do PSOL- pois irão precisar. A metáfora bíblica, mais do que nunca, é apropriada.

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