3 de nov de 2009

Da ditadura da grande mídia

Há sempre uma voz lúcida a lembrar que "liberdade de imprensa" não se confunde com "liberdade dos donos da imprensa". Quando fiz uma abordagem jurídica sobre a queda do diploma de jornalista, citei a fala do constitucionalista José Afonso da Silva: "a liberdade de informação não é simplesmente a liberdade do dono da empresa jornalística ou do jornalista", pois, ao lado do direito de informação, há o dever social das empresas de passar essa informação de forma imparcial e qualitativa.

Não sou ingênuo a ponto de acreditar em imprensa neutra. Não existe neutralidade, o que é perfeitamente humano, principalmente em uma sociedade de classes. Sendo os interesses econômicos o motor da História, como ensinou Marx, a imprensa não fica imune a essa condicionante. Mas, não sendo possível a neutralidade absoluta, que ao menos a parcialidade não fosse tão evidente.

Isto é: se não se pode ser imparcial, ao menos finja sê-lo.

Mas a parcialidade é expressa, descarada. A imprensa se comporta como um partido político, um clube, defendendo arraigadamente seus interesses.

Ilustrando isso, uso o recente ingresso (ainda pendente de votação pelo Senado) da Venezuela no Mercosul. TODA direita latinoamericana se rói de ódio pela Venezuela de Hugo Chávez. Tentaram um golpe de Estado em 2002, repelido pela vontade popular (o mesmo golpe foi feito em Honduras, mesmo não sendo Zelaya à esquerda como Chávez; ocorre que, pra direita latinoamericana, não precisa ser esquerda, basta que se proponham mudanças- eles não suportam sequer ouvir falar em mudanças). Chávez se manteve no poder, foi reeleito, e, dentro de todas as limitações históricas, tem melhorado o país- o índice de desenvolvimento humano da Venezuela (0,844), por exemplo, é superior ao do Brasil (0,813), conforme o ranking de IDH 2009 da ONU.

Pois bem. Nada disso importa- a Venezuela é o inferno na Terra. Na semana da aprovação, o jornal "O Globo" destilou sua raiva em seus editoriais. O "SBT Brasil" veiculou uma matéria que pintava a Venezuela como um Estado Policial em extrema miséria. A "Veja" deve ter vociferado, também. Todo o PIG, na expressão de Paulo Henrique Amorim, o "Partido da Imprensa Golpista", os barões da mídia direitista e reacionária. Todos eles vociferaram.

Temos dois pontos aqui. O primeiro, como dito: tudo bem que a mídia de direita seja parcial; mas há limites pra tudo, em prol da própria idoneidade da mídia. Ela perde sua função de informar para se limitar a (de)formar. Sua credibilidade vai para o ralo. O segundo ponto é o cerne desta postagem: diz respeito à liberdade de informação.

Ora, quando TODOS os meios de comunicação têm uma visão única, a visão anti-Venezuela (para ficarmos nesse exemplo), onde está a liberdade de informação dos partidários da Venezuela?

Não há. Não temos voz.

Quem é que fala bem de Cuba, na grande mídia? Ninguém. Mas há coisas boas em Cuba, coisas maravilhosas (no citado ranking de IDH, está na frente não só do Brasil, o que é mole, mas também da própria Venezuela, e, reparem, estamos falando de uma ilha há 40 anos sob bloqueio). Mas os barões da mídia calam diante de Cuba. As notícias são para difamar, caluniar, distorcer.

O que quero dizer é o seguinte: ao contrário do alardeado, não vivemos uma democracia. Não desfrutamos de liberdade de imprensa. O que temos, repito, é a visão única, à direita, elitista, empurrada diariamente, tanto na televisão quando na imprensa escrita. Quem pensa diferente está isolado. Daí a necessidade de fomentar outras ferramentas alternativas, como a blogosfera, que pode dar informação e cultura para além do sistema. Como diz o Nassif, a web 2.0 (a web interativa, da qual a blogosfera é expressão) é aspecto da própria democracia direta.

*

Do sítio do Paulo Henrique Amorim, sobre o assunto falado aqui: "A pedidos: como o Bonner trata o espectador do jornal nacional".

*

Vejam o ótimo (e vitorioso) parecer do senador Romero Jucá, a favor do ingresso da Venezuela no Mercosul. Refuta cabalmente todas as mentiras e calúnias disparadas contra a Venezuela bolivariana. Leitura mais que indicada contra a lavagem cerebral de "Veja" e quejandos: clicar aqui.

8 comentários:

  1. A imprensa é uma ‘formadora de opinião’, e a grande maioria das pessoas deixa-se levar pela opinião do jornalista, do que a imprensa diz: se este(a) puxar a favor, poderá favorecer tal situação, e se for contra, prejudicar (como tudo, tem sempre os dois lados da história). Enfim, acredito também que não haja imparcialidade nos noticiários, e os blogs realmente são uma excelente alternativa para quem pensa diferente e queira expor sua opinião, e o interessante é que o leitor tem espaço para defender seu conceito fazendo seus comentários e tudo mais - Isso sim é liberdade de opinião. Muito bom! Abraços. Bom final de semana. Marli

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  2. Já assistiu o documentário: Além do Cidadão Kane? Apesar de não ser seu foco, ele trata um pouco dessa questão da mídia pelega que temos. Vale a pena ver(apesar de dar um puta sono após os primeiros 30 minutos, não o veja após uma feijoada que não dá certo, falo por experiência própria).

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Beyond_Citizen_Kane

    abraço.

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  3. Marli,

    O ideal é que a imprensa (toda ela) fosse honesta, deixando claro ao consumidor o que é "fato" e o que é "opinião". Ou seja: juízos de valor, opiniões pessoais do dono do jornal etc. deveriam constar apenas nos artigos de opinião. Já as notícias deveriam ser isentas e se limitar a narrar os fatos, apenas informando, e nunca deformando.

    Mas não é assim que funciona. Daí a importância de priorizarmos e fomentarmos outras mídias, outras fontes de informação/ conhecimento, para que não fiquemos reféns unicamente daquilo que a grande mídia quer mostrar.


    Pense sobre,

    Verei o documentário. Na verdade sou um mau cinéfilo: nem o próprio "Cidadão Kane" do Welles eu assisti,rs.

    Outro documentário e, não por acaso, sobre a parcialidade da mídia de direita na Venezuela, é o "A revolução não será televisionada". Recomendo.

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  4. Em tempo.

    Na linha do que falamos aqui: "Vox Populi: sites e blogues superam revistas e jornais somados" - http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/blog/texto_blog.asp?id_artigo=7740

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  5. Realmente não se pode deixar levar apenas por uma opnião. Sempre bom ver os dois lados da história pra que o telespectador forme seu conceito. Infelizmente isso pouco acontece. Mesmo na grande mídia (televisão por exemplo) percebe-se um diferencial (mesmo que pequeno) entre um telejornal de um canal e outro. E concordo que a blogosfera é a melhor coisa da internet pra informação "alternativa",o importante é saber escolher quais ler.

    P.S.: Adoro teu blog.

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  6. Li agora o texto sobre como o Bonner trata o telespectador do JN. Fiquei chocada,confesso, com a forma como as notícias são escolhidas. Mas infelizmente existe uma parte da população que é sim como o Homer,não podemos negar. Pessoas essas que não querem pensar, nem ler,ou se dizem atribuladas demais pra isso. Se torna até um tanto complicado encontrar alguém pra discutir determinados assuntos.
    P.S.: O comentário que fiz não quer dizer que eu não fale muita, mas muita bobagem de vez em quando.

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  7. Emanuella, obrigado.

    Na verdade, nem há interesse da grande mídia em estimular o pensamento crítico. Querem eternos "Homers".

    A grande dificuldade é romper essa rede de alienação. Os blogs -que estão cada vez mais ganhando espaço, como fala o link que postei acima- são ferramentas nessa luta.

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  8. Realmente não há o estímulo ao pensamento crítico.

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