30 de out de 2006

O guardador de carros

O cenário do final de noite era uma barraquinha de churrasquinho, alguns bancos de plástico e o carro do dono do negócio, entoando um sertanejo alto apesar do avançado da hora. À base de muita cerveja, já estávamos naquele estágio etílico onde a letargia nos domina preguiçosamente e, em silêncio, meditamos nos assuntos da vida como só um bêbado pode fazer.

Então ele chega, animado, dançando, cantando, mexendo com todo mundo. Parece um morador de rua, mas é apenas um guardador de carros do bairro aproveitando, naquele momento, um curto período de folga. Fala conosco. Estava alcoolizado, o que tornava suas falas quase sem sentido, tornando-lhe a princípio uma companhia incômoda, mas estávamos nós também tomados daquela ternura alcoólica, onde o mundo parece bom e os homens, todos irmãos- já tendo dito, a propósito, Baudelaire, que o homem bom que bebe se torna excelente. E observamos, assim, sem maiores complicações, as evoluções do novo companheiro.

Bem, fazia frio aquela hora, e foi lembrada uma noite em que o companheiro recém-chegado entregou o casaco que usava a um morador de rua, que havia passado tilintando de frio. Perguntei: "É mesmo, você emprestou seu casaco?". De forma singela, dando de ombros, mas talvez ocultando uma falsa modéstia, respondeu: "Que nada, dei de presente pra ele". E mais não foi dito sobre o episódio. E nem precisava: que belo exemplo, aí, de solidariedade, de despossuído para despossuído! A solidariedade de quem tem parece inócua, parece alienante, parece forma de aliviar a consciência pesada burguesa; mas a de quem não tem, numa madrugada gelada, tem algo de divino. Impossível não lembrar, em episódios assim, daquelas belas fábulas cristãs e do bom samaritano.

Impossível não lembrar, também, da face do sistema, sempre à mostra, sempre à espreita. A noite gelada nada mais é que a expressão sensorial do sistema. Mas quantos se dão conta disso? Enfrentemos a noite gelada, camaradas. É preciso aquecer todo um mundo.

2 comentários:

  1. “O guardador de carros” leva-nos a uma série de reflexões... ficou perfeita a correlação de ‘noite gelada’ com ‘sistema’, já o casaco é a figura do amor, da solidariedade... “ Não é a violência de poucos que me assusta, mas o silêncio de muitos”. (Martin Luther King)... Depois de ler este texto, fiquei fã de Charles Baudelaire... Vc deve conhecer o “Embriague-se”, mas se não conhece, deixo aqui o endereço que está no meu blog: http://mscamp.wordpress.com/2008/09/23/embriague-se-%E2%80%93-charles-baudelaire/ . Abraços. Marli

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  2. Essa fala de Baudelaire que eu cito está no "Poema do haxixe". Já "Embriague-se" é muito bom, não conhecia, obrigado pela indicação.

    Esse fato que narro na postagem foi verídico. Ainda hoje em dia eu frequento aquela área. O que me tocou, como dito, é o fato de alguém sem posses manter o espírito de solidariedade, mesmo sendo, ele próprio, pobre.

    E de solidariedade é o que o mundo precisa.

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