6 de jul. de 2010

Rumi, Hallaj e a "Verdade"

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A tela do computador substitui, cada vez mais, os livros. É por isso que, acho eu, essa deve ser a segunda ou terceira postagem em que me coloco não de livro na mão, e sim na frente de uma tela de computador. É indiferente, em todo caso: se por um lado tenho o fetiche do "livro", do manuseio do papel, por outro importa é o acesso à cultura. E a internet é pródiga nisso, já falamos sobre na postagem O paradoxo. Onde mais, senão na internet, poderíamos encontrar de forma barata e acessível (basta lançar no Google!) esse vasto material sobre o sufismo?

O sufismo é o lado esotérico ("eso", dentro, interno) do islã.  Reynold Nicholson: "Todo o Sufismo está na crença em que, quando o eu individual se perde, o Eu Universal é encontrado". As opiniões se dividem. Para alguns (os dogmáticos, justamente) o sufismo é parte do islã, é inerente a ele. Querem que o sufismo seja do islã. Já eu digo que também é do islã, mas não exclusivo dele, e Ibn Arabi deixou isso tão claro, mas tão claro, que não vejo sentido em insistir nisso. Para outros, igualmente dogmáticos, por sua vez, o sufismo é mesmo uma heresia- e o ato supremo dessa mentalidade foi o martírio de Mansur al Hallaj, que em seu transe místico ousou dizer Ana al-Haqq ("Sou a Verdade"). Uma blasfêmia, uma apostasia, para o fundamentalista. De um lado e de outro, como se vê, o sufismo é presa do dogma. (O dogma não é assunto novo no blog:  já falamos a respeito aqui). O dogma quer capturá-lo justamente porque o sufismo não fala com o dogma, mas com a poesia.

27 de jun. de 2010

Observando (e um pouco de zen)

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Considero-me observador. É difícil esquecer um nome, um rosto. Cá no meu canto, enquanto aguardo – filas, guichês, ônibus – faço um rastreamento das coisas ao me redor. É um passatempo; tanta diversidade, tanta riqueza ao alcance de nosso olhos. Não é um cinema, mas pessoas reais, de carne e osso. E como isso é mais rico que o cinema, poucas pessoas se dão conta.

Por exemplo, estou no tribunal – não importa qual, nem o dia. O debate se desenrolava no plenário. Não uma sessão de julgamento, com todos os rigores solenes, mas sim juízes e advogados abordando temas em comum, um tipo de procedimento corriqueiro naquele tipo de Justiça. No fundo do plenário, oculta pela penumbra, lá estava ela. Sendo os cabelos e as roupas escuras, apenas o rosto alvo se destacava. Era bonita, eu pude notar, não a beleza gritante da juventude, mas madura, menos pela idade e mais pela postura. Juíza... Todo o modus operandi de uma austera autoridade. Foi enquanto transcorria o debate no plenário que a descobri, lá, parada, em pose de Helena Blavatsky. Pois era teosófica sua pose, sua postura, seu olhar. Teosófico, se é que podemos definir assim uma pose, uma postura, um olhar, mas nenhum outro termo seria mais adequado. E o olhar, eu percebia bem, estava em mim. Talvez não em mim, propriamente, mas no espaço físico etéreo-astral onde eu me situava, aqueles olhos de Blavatsky perscrutando o que os nossos, de leigos, não conseguem. Talvez eu não estivesse ali, pra ela. Olhava através de mim. Seja como for, precisei quebrar o encanto para prestar atenção no debate que se desenrolava.

18 de jun. de 2010

Um barulho na noite

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Abro os olhos. Uma pena- o sonho estava bom. Revisitava uma praça da minha infância, no bairro Peixoto, Copacabana. Estava mudada: o cenário era estranhamente botânico, digamos assim, plantas e flores para todos os lados, mas os brinquedos os mesmos, como costumavam ser, cheia de crianças. Enfim, um sonho agradável, nostálgico, mas com um pano de fundo de mistério, digamos assim de novo, como convém a todo bom sonho e ao id e seu domínio. Mas como dizia, abro os olhos e tudo se esvanece: acordo com um ruído no quarto. Intrigado tento, como um animal de sentidos desenvolvidos, apurar os ouvidos no escuro e identificar a fonte do ruído. Não consigo.

Sento na cama, ainda no escuro, conjeturando. Seria o ventilador, que, mesmo em dias frios, tenho o hábito de deixar ligado? Seriam cupins no armário? Seria...seria...? As hipóteses iam sendo descartadas conforme surgiam. Restava, ah, não, não pode ser, não o sobrenatural. A mais implausível das possibilidades. Mas implausível hoje. Houve tempo de temor supersticioso, de crucifixos e dente de alho no bolso, tempos de sinal-da-cruz e pai-nossos. Mas é passado, ficou para trás nas névoas da minha Idade Média particular.