26 de mai de 2010

Falando de horas

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1. O melhor horário para mim -o mais misterioso, digamos assim- são as 18:00.  É uma espécie de interlúdio entre duas fases, onde noite e dia se misturam, se mesclam, copulam. Encerra-se o ciclo: o dia acaba, e adentramos o reino da noite. Estamos no limiar, daqui pra frente é a noite e seu domínio.  É a hora da Ave-maria, é a hora, não sei por quê, em que me vem à mente lembranças de praças arborizadas.

2. Ao meio-dia, o sol parece estar zangado. Despeja aqui embaixo sua fúria, condensada em raios e mais raios. Impressionante: arde. Queima a pele. Daí pensamos em todas as notícias cataclísmicas que recebemos da mídia, sobre fim do mundo e efeito estufa. Derretimento dos pólos. Quando era menino, o ano 2000 seria o final dos tempos. Falávamos brincando, mas havia um pouquinho de medo da profecia mesmo no espírito infantil. Já se passaram 10 anos de 2000, e cá ainda estamos. O mundo acaba diariamente para quem morre, é simples assim. Por que tanta coisa e tanto Nostradamus? Mas, é meio-dia e o sol é apocalíptico.

O que motiva essa fúria do sol? E sofremos nós todos aqui embaixo, eu mais que todos, maldito quem disse que advogado nos trópicos precisa de paletó.

19 de mai de 2010

Todos os sentidos

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1. O que era uma dor forte se transformou num leve incômodo. Correr de jeito nenhum, mas já posso andar sem capengar. Tem algo de ridículo em mancar por aí, mas, pior que isso, é ver como os verdadeiros deficientes sofrem nesse mundo egoísta: degraus altos, escadas inacessíveis- realmente as coisas não são projetadas para os idosos, para os incapacitados. Bem, não estou mancando mais, o corpo se regenera (como tudo vivo) e a vida segue seu ritmo.

Tentei voltar ao muay thai, mas não deu. O joelho (que já era ruim) aguentou só quatro treinos.  Parei mesmo no kruang vermelho-ponta-azul (o kruang é uma faixa amarrada ao braço, um amuleto, entre os lutadores tailandeses, mas que no ocidente é usado como crítério de graduação). O espírito -já tem postagem sobre isso- é invencível, mas a matéria é fraca. Muay thai pra mim, definitivamente, é passado.

2. O escuro tem algo de mágico. Estamos de olhos bem abertos, mas nada vem- só o negrume, como um vazio, como um nada que, na verdade, é repleto de mistério. Afinal, não vemos, mas as coisas estão lá. Elas apenas não aparecem para nós, mas estão lá. Quem disse que as coisas precisam de nós? O escuro tem algo de cósmico. Caminhar às escuras é a sensação que, acredito, tem o meteoro, quando atravessa o breu universal.

14 de mai de 2010

Algumas opiniões filosóficas

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O problema do dualismo (ou binarismo) é que enxerga apenas A e B, preto e branco. A dialética, ao contrário, reconhece o preto e o branco como diferentes, mas sabe que se tocam -os inúmeros tons de cinza- e que, ainda, o preto às vezes se faz de branco e vice-versa.

O stalinismo é binário. Dentro de sua lógica, se a direita critica Stálin, e Trotsky também critica, então Trotsky é direita.  O "então" é o coração dessa falácia, a raiz do sofisma. Daí Leandro Konder falar em "deformação antidialética dos tempos de Stálin", deformação esta que ainda faz vítimas. Não se pode falar em deformações antidialéticas dentro do marxismo, que é, nas palavras de Trotsky, a teoria do movimento e não da estagnação. Sendo a teoria do movimento, o marxismo é dialético, e não binário. Daí concluímos que stalinismo e marxismo são coisas antagônicas.

O que é dito acima deve ser tomado com cuidado. A dialética não pode dar margem a interpretações oportunistas, com tudo sendo justificado em prol dessa ductibilidade. Em que pese o preto poder agir como branco, preto e branco são coisas distintas. Negar essa distinção é falsificar a dialética.

6 de mai de 2010

Duas notas de Bukowski

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Das "Notas de um velho safado" (Notes of a Dirty Old Man), gosto em particular de duas, logo no início. Ambas por curiosidade envolvem Jack Kerouac, autor de "On the road", associado à geração beatnik. A primeira tem como personagem Neal Cassady- justamente personagem de "On the road", como o nome "Dean Moriarty". A outra narra um encontro com Kerouac em pessoa.

Uma digressão: o triste em Kerouac é o modo como terminou. Nas palavras de Eduardo Bueno: "Jack Kerouac morreu em outubro de 1969, depois de anos sentado no sofá vendo programas de auditório na TV da casa de sua mãe (com quem morou a vida inteira), barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros da geração beat, odiando cada cabeludo americano e se perguntando o que, afinal, havia de errado com On the road". Um final triste, como se vê, quase trágico.

O que gosto, no tipo de literatura de Bukowski, é o estilo cru e direto, underground. Não se romanceia muito: é a vida, mais precisamente a vida real, que a literatura "poliana" não mostra. É o caso de Henry Miller: às vezes pervertido, outras imoral. Escatológico também, mas, e essa é a mágica, extremamente lírico. Pura poesia no submundo, em meio a garrafas vazias, ressacas, sexo sujo, imundícies (principalmente no "Trópico de Câncer").

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